quarta-feira, 30 de setembro de 2026

 Degelo no mundo


Mudança climática derrete glaciares e altera a vida no planeta





Enquanto o mundo esquenta e derrete a nossa volta, o presidente dos Estados Unidos segue negando a realidade e os estudos existentes. Donald Trump, chamou a mudança climática de “a maior fraude já perpetrada contra o mundo” em seu discurso na Assembleia Geral da ONU- Organização das Nações Unidas, na terça-feira (23), em Nova Iorque. Ele afirmou que o consenso científico foi “feito por pessoas estúpidas” e defendeu o carvão como fonte de energia, além de celebrar a saída dos EUA do Acordo de Paris, tratado internacional que estabelece metas globais para a redução dos gases que colaboram para o aquecimento do planeta.


A verdade é outra. “Cadê o gelo que estava aqui?” Pergunta o montanhista brasileiro Pedro Hauck, 44 anos, a cada vez que lidera uma expedição ao Aconcágua, no lado argentino da Cordilheira dos Andes, a maior montanha do ocidente e do hemisfério sul, com 6.961 metros de altitude. A Venezuela, que compartilha a cordilheira, há quatro anos se transformou no primeiro país do mundo a perder todos os seus glaciares.


Foi justamente na Venezuela, país invadido por militares dos EUA para sequestrar o presidente Nicolas Maduro no dia três de janeiro deste ano, que o último glacial existente, o La Corona, derreteu. Com 4.916 metros de altitude, no Parque Nacional  de Sierra Nevada, o La Corona saiu de 4,5 km quadrados de campo de gelo sólido para apenas 0,02 km de gelo. Em entrevista por telefone, Pedro Hauck fala sobre sua experiência em alta montanha e as alterações que tem percebido em mais de duas décadas de escaladas. Os cientistas estimam que os próximos países a perderem seus glaciares sejam a Indonésia, o México e a Eslovênia, devido aos recordes de calor registrados recentemente.


Pedro Hauck, paulista de Itatiba, radicado há 17 anos em Curitiba, é geógrafo formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), pós graduado na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e guia de expedições de montanhismo. Ele já escalou mais de 170 montanhas acima de cinco mil metros de altitude e acabou de liderar uma escalada ao Kilimanjaro, na Tanzânia, a maior montanha do continente africano, com 5.895 metros. A escalada ao topo do Kilimanjaro, que é um vulcão, atravessa cinco biomas diferentes, desde a floresta tropical na sua base até o topo glacial.


Nas tuas fotos é possível ver o degelo nas montanhas. Que leitura você faz sobre esse fenômeno?


Eu sou uma testemunha das mudanças climáticas globais. Em 2002, na minha primeira experiência no Aconcágua, a montanha era totalmente diferente de hoje. Em fevereiro, que é uma época em que o derretimento do gelo está mais avançado, mesmo assim eu escalava em gelo, isso na Plaza de Mulas, que é onde fica o acampamento base, a 4.300 metros de altitude. Atualmente, não tem nada de gelo. Zero gelo. Já escalei montanhas nos Andes cuja rota era somente pelo gelo, o gelo derreteu, como na montanha Rincon, com 5.590 metros de altitude. Era uma rota por uma canaleta de gelo e agora a escalada é em rocha pura. É muito perigoso, porque essas rochas estão soltas, elas estavam estáveis por conta do gelo, que funciona como cimento.


Com a alteração de temperatura, o que acontece com o clima da região?


O clima é muito mais do que temperatura, o clima é precipitação, é vento, é irradiação. Todos esses elementos mudaram e nos Andes uma coisa que mudou muito é a precipitação, tem nevado cada vez menos, sem falar na temperatura que subiu muito. A média de temperatura no inverno nos Andes oscilava entre 14 graus centígrados negativos e zero. As rotas técnicas, com gelo, estão desaparecendo, assim como todos os glaciares, agora estão surgindo as rochas soltas. As estações de esqui estão fechando porque não há mais gelo.


A estação de esqui de Chacaltaya, na Bolívia, perto de La Paz, que era a estação de esqui mais alta do mundo, a 5.421 metros de altitude, fechou em 2009. Acabou o gelo por completo e a estação foi abandonada. Um amigo boliviano me disse que antigamente, a van do Clube Boliviano de Montanhismo passava na casa dos associados e eles iam para o cerro Chacaltaya e passavam o fim de semana esquiando no gelo. Com o fim da neve no cerro, acabou o Clube Boliviano, a estação de esqui, os empregos e a geração de renda oriunda dessas atividades.


Eu ministro um curso de alta montanha na Bolívia há algum tempo. São aulas práticas de técnica de escalada em gelo. Há três anos eu levava o grupo até 4.900 metros de altitude para praticarmos a escalada em gelo. Não tem mais gelo nessa altitude. Agora nós precisamos subir até 5.300 metros para encontrar gelo e praticar a técnica. Abaixo dessa altitude é tudo rocha exposta ao Sol e às variações climáticas. 


A estação de esqui Vallecitos, no cerro Cordon del Plata, a cerca de cinco mil metros de altitude, na Argentina, foi totalmente abandonada, não tem mais gelo. A estação de esqui de Penitentes, 4.350 metros de altitude, ao lado da Rota 7, que vai de Mendoza, na Argentina, a Santiago, no Chile, está parcialmente abandonada desde 2016 porque não é em todos os invernos que há neve suficiente para a prática do esporte. 


Por conta do degelo, lugares que tinham abundância de água, agora não têm mais e as pessoas acabam abandonando suas terras e seu estilo de vida e migram para as cidades. Em agosto de 2023, a região dos Andes, no pé da cordilheira, registrou temperatura de 38,9 graus centígrados.  E agosto é um mês de inverno.


Qual a tua estratégia nas expedições para diminuir o impacto ao meio ambiente?


Nas minhas expedições faço de tudo pra zerar o impacto, não deixamos nada e ainda recolhemos o que é encontrado de lixo no caminho. Muitos dos locais que frequentamos são unidades de conservação e têm suas regras de controle e, por isso mesmo, não encontramos muitos resíduos. Tem ainda uma questão importante, que são as fezes, sempre levamos banheiros, não é químico, e as pessoas fazem suas necessidades dentro de um saquinho, e a gente traz de volta. As expedições ao monte Roraima, no Brasil, também adotam essa prática.


Lá na montanha não fica nada. Deveria haver uma estrutura local para transformar o resíduo biológico em algum tipo de nutriente. É necessário pensar em soluções para essa questão. A gente vê que nesses destinos de montanhismo existe cada vez mais uma consciência ambiental, mas ainda falta organização. 


Kilimanjaro

Estudo realizado com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente- Pnuma, mostrou que 13 mil hectares da mata da base do Kilimanjaro foram destruídos pela mudança climática a partir de 1976. Um dos maiores desafios que provocaram as perdas dos últimos 50 anos foram os incêndios florestais, consequência da elevação da temperatura na região. 

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas prevê um aumento de 3,2°C na temperatura média anual da África Oriental até 2080. Em consequência, os glaciares da região deverão desaparecer completamente em algumas décadas. A massa de gelo que já foi perdida chega a 80%.

Uma das recomendações do estudo da ONU é o reflorestamento da montanha mais alta do continente africano para proteger o abastecimento de água que ameaça vastas áreas da região oriental. A água já perdida por conta do degelo poderia abastecer um milhão de pessoas durante um ano.

O relatório recomenda ao governo da Tanzânia que proteja a bacia hidrográfica, invista em sistemas de alerta e faça da adaptação climática uma prioridade. A proteção do ecossistema montanhoso é também uma forma de proteger o turismo, que contribui com mais de um terço da receita da Tanzânia.

BOX 1

Fotografia do degelo


O fotógrafo, historiador e expedicionário João Paulo Barbosa, 50 anos, está documentando o degelo no mundo. É o projeto N'Ice Planet​, que documenta zonas frias e as principais questões relacionadas ao gelo, como os dilemas populacionais​, as migrações por conta de mudanças climáticas e o risco de extinção dos povos árticos.


João Paulo explica que a documentação que realiza também mostra ativistas​ ambienta​is, que fazem alertas sobre os riscos que o planeta experimenta, conversas com cientistas e trabalhos de geoengenharia que eles desenvolvem, “e também procuro registrar o que está sendo feito para mitigar os efeitos do aquecimento global e consequente derretimento do gelo”. É um projeto inédito e relevante por sua proposta abrangente e de impacto social.


Este ano, 2026, João Paulo fotografou geleiras do Nepal e, em 2025, retornou à Antártica para novos registros fotográficos de geleiras e de degelo, também esteve na Islândia e na cordilheira Branca, no Peru. No próximo ano, João Paulo irá para a cordilheira Ruvenzoni, em Uganda, na África, onde está a montanha Ngaliema, também chamada de Stanley, com 5.895 metros de altitude, e ainda pretende retornar ao Kilimanjaro, onde esteve há 30 anos, para registrar as alterações ocorridas com a mudança climática.


No roteiro de João Paulo, ainda consta uma ida à Groenlândia e à Nova Zelândia, porque ele quer mostrar as alterações havidas nos cinco continentes. Enquanto não conclui a documentação, João Paulo realiza conteúdos paralelos, como um filme sobre a cordilheira Branca, exposições em museus e escolas, palestras pelo mundo e um filme sobre a Antártica. O filme, de 2023, conta a origem dos nomes dados aos lugares da Antártica.


“Documentar a urbanização das mais altas montanhas geladas do planeta é dos mais tristes temas que compõem a minha pesquisa sobre o gelo no Antropoceno (termo empregado pelo químico holandes Paul Crutzen, vencedor do Prêmio Nobel de química de 1995, para designar uma nova época geológica caracterizada pelo impacto do homem na Terra). Será que logo mais haverá um hotel sofisticado na montanha K2, no Himalaia, a exemplo do que já acontece no Aconcágua e no Everest?”, indaga João Paulo.


Apenas no verão de 2025, foram trinta mil refugiados do clima na região do Himalaia e, em agosto deste ano, com o colapso de uma geleira no Nepal, mais de uma mil pessoas morreram, cerca de quatro mil estão desaparecidas e milhares foram deslocadas.


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Gelo dos polos


O glaciólogo gaúcho Jefferson Cardia Simões já participou de duas expedições ao Ártico e 27 à Antártica. Sua última expedição foi em 2025, quando o professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) deu adeus ao longo relacionamento que teve com o gelo. Este cientista estóico, como ele mesmo se considera, agora vai se dedicar às pesquisas em bancada e a escrever artigos científicos e livros.


A expedição realizada no ano passado tinha como objetivo principal obter informações sobre a movimentação do gelo nas bordas do continente antártico, porque este gelo pode estar dinamicamente instável. São milhares de toneladas que podem ter um deslocamento abrupto e provocar uma turbulência sem precedentes no mar, algo como um tsunami. O segundo objetivo foi averiguar o nível de salinidade do mar, porque ele está mais ácido.


O professor explica que a pesquisa identificou que a água do oceano austral está mais ácida devido a concentração de CO2. Isto porque o gelo que cobria a água do mar derreteu. Esse gelo funcionava como um isolante térmico. Sem essa proteção, a água do mar absorveu o CO2 que existe na atmosfera, a maior parte dele produto da interferência humana. As regiões polares são mais sensíveis às mudanças climáticas e elas dão sinais claros do que está acontecendo. O derretimento das geleiras expõe as rochas e elas aquecem  a região porque propagam calor. “A ciência não é feita apoiada em narrativas  e sim em evidências”, afirma Simões.


As geleiras polares perderam 30% de sua área e as geleiras não polares, como as da Cordilheira dos Andes, por exemplo, perderam 40% de sua área, expondo pedras, gerando calor, provocando inundações no início do fenômeno e, agora, escassez hídrica para as comunidades que vivem na base da montanha. 


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

 Universidade de Porto Alegre leva saúde para áreas de difícil acesso

e comunidades em vulnerabilidade

Parte da ação da UFCSPA é realizada com apoio de navio da Marinha do Brasil



Do Sul do Brasil para o Norte, levando saúde e trocando experiências de vida. Foi o que aconteceu na Operação Embarcada, realizada numa parceria da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) com a Marinha do Brasil (MB). Em sua primeira edição, a iniciativa levou assistência médica e ações de educação em saúde a 19 comunidades ribeirinhas de difícil acesso do estado do Amazonas. A ação contou com o apoio logístico do Navio de Assistência Hospitalar (NAsH) Soares de Meirelles, que atendeu comunidades localizadas ao longo da calha do Rio Negro.

Na ação inédita entre as duas instituições, realizada no período de 12 a 27 de agosto, ocorreram cerca de dois mil atendimentos e 3.500 procedimentos médicos. A UFCSPA também participa de iniciativas de educação em saúde e capacitação em áreas vulneráveis do Rio Grande do Sul. Já foram atendidas comunidades de Capão Novo e São Miguel das Missões, entre outros municípios gaúchos, além de realizada a capacitação de agentes comunitários de saúde do município de Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre.

A Operação Embarcada é resultado de um termo de cooperação firmado entre a UFCSPA e a MB, por meio do Ministério da Defesa, em abril de 2026, que prevê a realização de ações consecutivas de saúde durante cinco anos. “É possível, até, que tenhamos duas ações por ano”, explica a coordenadora geral do projeto pela universidade, a bióloga e professora Cláudia Bica. “O termo de cooperação prevê que o nosso trabalho sempre será na região Norte, em áreas atendidas pela Flotilha do Amazonas, que atende os estados do Amazonas, Acre e Roraima”, destaca a professora. 

O acordo estabelece o embarque de docentes, estudantes e residentes da universidade em embarcações da Marinha para a realização de atividades acadêmicas e assistenciais em comunidades da região amazônica. O trabalho permite que o grupo conheça as condições sociais, geográficas e de saúde da população ribeirinha, trocando experiências e colaborando para a melhoria da qualidade de vida dos moradores da região.

A Operação Embarcada contou com 16 integrantes da equipe de saúde, entre profissionais médicos clínicos, traumatologista, radiologista, hematologista, fisioterapeuta, psicólogo, biomédico, enfermeiro e estudantes das áreas da saúde. As atividades de educação em saúde incluíram oficinas sobre primeiros socorros, educação sexual, saúde bucal, cuidados com a água e prevenção do pterígio, além de rodas de conversa sobre projeto de vida e perspectivas para o futuro. As equipes também realizaram sessões de cinema nas comunidades atendidas e organizaram várias bibliotecas para incentivar o hábito da leitura.

O pterígio, esclarece a professora Cláudia Bica, é popularmente conhecido como “carne nos olhos” ou “carnosidade”. É resultado do crescimento do tecido fibrovascular, que se origina na conjuntiva, que é a parte branca dos olhos, e avança em direção à córnea, prejudicando a visão e podendo levar à cegueira. O agravo é resultado da contínua exposição à luminosidade, vento e poeira. A prevenção é feita com o uso de óculos de sol com proteção UV e chapéu, além de colírio lubrificante para diminuir o desconforto. A UFCSPA levou para a missão 17 kg de colírio e mais de 400 óculos de sol.


O grupo da universidade também encontrou conflitos sociais e pessoais graves, que exigiram a participação ativa do psicólogo da equipe e encaminhamento para as instituições ou redes de apoio local. Tal como ocorre nas demais regiões do Brasil, mulheres e crianças também são as principais vítimas de abusos e violência na Amazônia. “Na realidade, casos como esses, necessitam de uma abordagem institucional e multidisciplinar”, diz a coordenadora geral Cláudia Bica.


Outras ações 


A UFCSPA também participa das ações do Projeto Rondon, coordenado pelo Ministério da Defesa, mas que envolve diversos ministérios, como o da Educação, por exemplo. Criado em 1967 pela ditadura instalada no Brasil após o golpe de 64, o projeto foi extinto em 1989, consequência do processo de  redemocratização do país, e relançado em 2005 pelo governo federal durante o primeiro mandato do presidente Lula para levar saúde e educação para comunidades  de difícil acesso ou vulneráveis. 


Além de participar do Projeto Rondon desde 2012, a UFCSPA ainda tem uma fase regional de atendimento às comunidades, que é o Projeto Raízes, mesmo nome de uma disciplina da universidade. O Raízes pode ser acionado pelas prefeituras gaúchas. Existe também o Projeto Sem Fronteiras, em fase de implementação, que pretende ser uma ação de cooperação com outros países. Todas essas ações extra-muros da universidade integram a iniciativa Entrelaçar, totalmente voltada para o atendimento de comunidades.


MST em Carajás


No último mês de julho, estudantes da UFCSPA participaram de uma ação do Projeto Rondon no estado do Pará, a Operação Carimbó, que marcou os 100 anos da criação do projeto. Professores e estudantes levaram ações de educação, saúde e direitos humanos para diversas comunidades do estado e, inclusive, estiveram na Serra dos Carajás, a maior jazida de ferro a céu aberto do mundo, explorada pela companhia Vale.


Nessa área está localizada a maior comunidade de trabalhadores rurais sem terra do Brasil, o acampamento Terra e Liberdade, a menos de 3 km da Estrada de Ferro Carajás. Com mais de cinco mil famílias em uma área de 55 hectares, o Terra e Liberdade recebeu a visita da equipe de rondonistas da UFCSPA, que ficou impressionada com o nível de organização da comunidade e as soluções encontradas. ⁠ As famílias vivem e produzem em pequenos lotes de 10 por 20 metros e garantem a sustentabilidade do lugar e a soberania alimentar.

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Por meio de um acordo de cooperação técnica firmado com o Incra- Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária,  a companhia Vale repassou recursos para o instituto adquirir terras na região e promover o assentamento definitivo das famílias sem terra, o que está ocorrendo de forma gradual.⁠⁠






quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 Entrega do Prêmio Rubens Paiva reafirma luta permanente pela democracia


Uma noite para passar a história a limpo, honrar a memória daqueles que lutaram em defesa da democracia e contra as atrocidades da ditadura e reafirmar que a proteção dos direitos humanos é permanente e um dever de todos. Foi o que aconteceu na solenidade de entrega do segundo Prêmio Rubens Paiva, na quinta-feira (03/09), na Assembleia Legislativa RS, uma iniciativa da Associação de Ex-Presos e Perseguidos Políticos (AEPPP). 




Este ano foram homenageados, excepcionalmente, na modalidade Ex-Presos e Perseguidos Políticos, duas referências históricas da luta pela democracia no Brasil, o economista e ex-deputado estadual Flávio Koutzii e o jornalista Flávio Tavares. A Comissão Memória, Verdade e Justiça Enrique Serra Padros, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, recebeu o prêmio na categoria Entidade de Direitos Humanos, e os demais homenageados foram o ex-governador e ex-ministro Tarso Genro, na modalidade Defensores dos Direitos Humanos; o Blog Esquina Democrática, do jornalista Alexandre Costa, na modalidade Meios de Comunicação e Comunicadores; e a coreógrafa, atriz e educadora Marta Haas, do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, na modalidade Juventude.


Homenagens


O jornalista Sérgio Bittencourt, presidente da AEPPP, abriu a sessão falando sobre a importância do trabalho feito pelos homenageados, que colocam “a defesa da democracia e dos direitos humanos em sua missão de vida”. O primeiro deles a receber o troféu Rubens Paiva foi o jornalista Flávio Tavares, 92 anos de idade, que foi preso e torturado no Rio de Janeiro, logo após o golpe de 64, e depois sequestrado no Uruguai, onde foi torturado por 28 dias, inclusive com a simulação de três fuzilamentos.


O jornalista Flávio Tavares, ao receber o troféu, disse que não sabia porque estava recebendo o prêmio: “afinal eu apenas cumpri com o meu dever de cidadão ao defender a democracia”. Ele relembrou que conheceu Rubens Paiva, ex-deputado federal, em Brasília, quando era comentarista político do jornal Última Hora. O economista e ex-deputado Flávio Koutzii, ao receber o troféu, afirmou que a “defesa da democracia e dos direitos humanos se torna cada vez mais necessária e urgente”, numa referência às constantes provocações da extrema direita e de grupos fascistas no Brasil. 


A história das Caravanas da Anistia foi relembrada por Tarso Genro ao receber a homenagem. Na condição de Ministro da Justiça, no segundo mandato do Presidente Lula, Genro implementou as Caravanas que percorreram o país para identificar aqueles que lutaram na defesa da democracia durante o período da ditadura, honrar sua trajetória e conceder indenização. Tarso defende o argumento de que a Lei da Anistia, de 1979, não contempla aqueles que praticaram sequestros e torturas em nome do Estado e concluiu: “o Estado é quem deve um pedido de desculpas às vítimas da ditadura”. 


Na sequência, a professora Roberta Baggio, coordenadora-geral da Comissão Memória e Verdade Enrique Serra Padros (CMV), recebeu o troféu em nome das onze mulheres que compoẽm o grupo de trabalho. Roberta estava acompanhada da reitora da UFRGS, Márcia Barbosa, que implementou a Comissão em dezembro de 2024, e da viúva de Enrique Serra Padros, Cláudia Bruno, que dá nome à Comissão. Roberta Baggio informou que o relatório final do trabalho da Comissão será entregue no dia 10 de dezembro, com várias recomendações e com o depoimento de cerca de 60 pessoas, entre servidores, estudantes e professores da UFRGS, que sofreram perseguição durante a ditadura instalada no Brasil com o golpe de 64.


Os homenageados Alexandre Costa jornalista, e Marta Haaz, artista, também receberam seus troféus, e agradeceram a homenagem. Costa salientou a importância de “olhar para o passado para que ele não volte, porque ele está muito presente; essa história ainda não acabou”. E finalizou com o grito de ordem “fascistas não passarão”, sendo seguido por todas as pessoas presentes ao ato. Marta Haaz leu o poema Não se Escolhe, de Gioconda Belli, que fala sobre o dever de levar o amor na caminhada.


Escolha


O jornalista Sérgio Bittencourt, presidente da AEPPP , explicou o critério adotado para a escolha dos homenageados. “A seleção dos premiados é feita  por meio de inscrição nos canais de comunicação da AEPPP”, explica Bittencourt, “e, posteriormente, as inscrições passam pela análise de uma comissão formada pelos promotores do Prêmio Rubens Paiva, que são a AEPPP, o Movimento de Justiça e Direitos Humanos, a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, o roteiro histórico Caminhos da Ditadura, e o Conselho Estadual Direitos Humanos”.


Essas entidades fazem duas indicações para cada modalidade e a seleção final acontece em votação dos integrantes da AEPPP. Bittencourt foi preso e torturado quando militava no movimento estudantil, tinha 18 anos. Ele foi uma voz potente na campanha pela anistia no Brasil. 


Rubens Paiva


O Prêmio Rubens Paiva é uma homenagem ao ex-deputado federal Rubens Paiva, preso, torturado e morto pela ditadura. Paiva era engenheiro civil, ativista e deputado federal e foi cassado pela ditadura militar. Nascido em Santos em 26 de dezembro de 1929, ele se destacou no movimento estudantil e foi eleito deputado pelo PTB em 1962.

Trajetória:

  • Golpe de 1964: Fez discurso na rádio contra o golpe em 1º de abril de 1964, tendo o mandato cassado logo depois e partiu  para o exílio.

  • Prisão: Foi detido em sua casa no Rio de Janeiro em 20 de janeiro de 1971 por agentes da repressão.

  • Morte: Levado ao DOI-Codi, foi torturado e morto no dia seguinte e seu corpo foi ocultado pelos militares, que forjaram uma falsa fuga. O corpo de Rubens Paiva jamais foi localizado.

  • Comissão da Verdade: A investigação oficial comprovou que ele foi executado pela ditadura.

  • Legado familiar: Sua esposa, Eunice Paiva, liderou por décadas a busca por justiça, cuja história inspirou o livro e o premiado filme Ainda Estou Aqui .