terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

 Caminhos da Ditadura em Porto Alegre faz imersão na Argentina

Trajeto histórico completa 10 anos e cruza fronteira



A iniciativa Caminhos da Ditadura em Porto Alegre completa 10 anos. O projeto começou a ser construído em 2016 por estudantes do curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em janeiro de 2026, o Caminhos cruzou a fronteira e foi até Buenos Aires, capital da Argentina, dando mais contexto aos relatos de extermínio que uniu ditaduras do Cone Sul sob as asas da Operação Condor, coordenada pelos Estados Unidos, com o objetivo de eliminar adversários políticos transfronteiriços. 


A professora de História Anita Natividade Carneiro, 30 anos, que criou o Caminhos em 2016, está à frente do projeto que levou um grupo de 28 pessoas à Argentina, em parceria com a arquiteta Cecília Giovenardi Esteve, 38 anos, que também é guia de turismo e integra o grupo de mediadoras do Caminhos. Juntas elas construíram um intenso roteiro de visitas a centros de memória e encontros com sobreviventes de campos de extermínio, ativistas, pessoas que foram sequestradas quando crianças e outras que nasceram no cárcere.


O grupo conheceu testemunhos potentes que expõem os bárbaros métodos de tortura e extermínio praticados na Argentina durante a ditadura mais cruel vivida pelo país, de 24 de março de 1976 a 10 de dezembro de 1983. Foram 2.818 dias de crimes hediondos cometidos pelo Estado, que implantou mais de 800 centros de tortura e extermínio, sequestrou e desapareceu com 30.000 pessoas e se apropriou de 500 bebês nascidos na prisão ou que foram sequestrados. Até o momento, apenas 140 pessoas, nascidas no cárcere, recuperam sua verdadeira identidade.


Para a construção do roteiro em Buenos Aires, Cecília se valeu da experiência que tem para organizar viagens temáticas, em especial àquelas que costuma fazer à Argentina com grupos da Arquitetura desde 2016. “Desta vez focamos na simbologia do espaço construído relacionado à ditadura”, explica Cecília. Ela diz também que “nas nossas mediações em Porto Alegre é comum surgirem questões relacionadas à ditadura no Cone Sul, então percebemos que uma viagem de imersão qualificaria ainda mais o nosso grupo”.

Em Porto Alegre

No mapa virtual do Caminhos da Ditadura em Porto Alegre (https://www.ufrgs.br/caminhosdaditaduraemportoalegre/ ) constam os 39 locais de violação dos direitos humanos identificados pela Comissão Nacional da Verdade em 2014 e vários locais de referência da militância política e do movimento estudantil. Atualmente, são mais de 200 pontos mapeados. Atualmente, são dois trajetos presenciais que percorrem referências histórias, um no bairro Bom Fim e outro na Praça da Matriz,  numa caminhada de aproximadamente duas horas, parando em diversos locais para ouvir as informações das e dos mediadores e também conversar com os participantes, reunidos em grupos de 50 pessoas, no máximo.

De acordo com Anita, que é doutoranda da UFRGS em Ensino da História, “após essa imersão nos locais de memória na Argentina, percebemos que o Brasil tem movimentos muito importantes no caminho da preservação dos lugares de memória, mas são insuficientes. Aliás, nunca será suficiente o número de memoriais e monumentos que vierem a ser erguidos. Mas avançamos muito no processo da memorialização, principalmente em relação aos locais onde ocorreram violações dos direitos humanos durante a ditadura no Brasil”.

Ela destaca também que “as pessoas que nos receberam nos locais de memória em Buenos Aires deixaram claro que o governo do presidente Javier Milei não dá o suporte necessário para a manutenção desses locais. Na Argentina, tal qual no Brasil, esses memoriais sofrem com a falta de financiamento, que não é necessariamente só público, vimos que moradores de um bairro se mobilizaram para preservar um centro de memória, que é o ex-centro clandestino de detenção da rua Virrey Cevallos, 630”.

A doutoranda em História está ciente que “ainda falta uma política de memória mais contundente, mais forte, pelo Estado, no Rio Grande do Sul e no Brasil, para que os espaços de memória se efetivem”. Anita destaca também a existência de muitos monumentos em homenagem a ditadores e colaboradores do terrorismo de Estado no Brasil, inclusive um condomínio em Porto Alegre com o nome ‘31 de março’. É importante realizar campanhas de conscientização sobre esses lugares. A sociedade civil, junto com o Estado, deve pensar em alternativas para esses espaços. A ditadura é um tema de disputa de memória”. 

Clube Atlético e Universidade das Madres

O minucioso roteiro da viagem iniciou com uma visita ao local onde funcionou o Clube Atlético, que serviu como Centro Clandestino de Detenção, Tortura e Extermínio, de 1976 a 1983. Cerca de 1.500 pessoas foram presas no local, “que era um verdadeiro campo de concentração”, afirmou o sobrevivente Daniel Mercogliano, 75 anos, sequestrado em casa no dia 19 de abril de 1977. Ao dar seu testemunho, Daniel estava acompanhado de Sílvia Fontana, irmã de Liliana Fontana, sequestrada e desaparecida desde o dia 01 de julho de 1977.

De acordo com o testemunho de Daniel, “os centros de tortura faziam parte de um plano de extermínio do governo militar, era terrorismo de Estado”.  Daniel disse também que “a classe dominadora seguiu acumulando dinheiro e poder enquanto a classe operária era presa, torturada e assassinada. No centro de extermínio, a comida era suficiente apenas para que continuássemos vivos e a tortura prosseguisse no dia seguinte”. Pessoas de vários países também foram sequestradas e presas nesse centro de extermínio. Cerca de 500 foram identificadas.

O prédio do Clube Atlético foi demolido em 1988 para a construção de um viaduto. Graças a intervenção popular e ao trabalho de arqueólogos, estão sendo realizadas escavações no local e parte da história pode ser recuperada. Em 2022, a equipe de arqueólogos localizou vários documentos e objetos durante as escavações. Uma meia vermelha e uma camiseta foram identificadas por Sílvia Fontana, como peças de roupas que sua irmã vestia quando foi sequestrada. Liliana não foi localizada até o momento, seu nome permanece na lista de pessoas desaparecidas. Hoje teria 69 anos.

Liliana Fontana, a Lili, era militante sindical, estudante de cabeleireira e estava grávida de dois meses. Foi sequestrada da casa dos pais junto com o companheiro, Pedro Sandoval. Testemunhas disseram que os viram na prisão do Clube Atlético. Seu filho, Alejandro Pedro Sandoval, é o neto número 84, resgatado pelas Avós da Praça de Maio em 2006, ano em que recuperou sua identidade. Alejandro havia sido apropriado  pelo policial Víctor Enrique Rei, atualmente preso. O primeiro neto a ser identificado foi em 1978. Até o momento, 140 recuperaram a identidade. Estima-se que 300 crianças nasceram no cárcere. 


Caminhos da Ditadura em Porto Alegre também conheceu a Universidade Popular de Las Madres, um projeto consolidado em abril de 2000. A universidade, que agora não recebe auxílio financeiro do governo Milei, fica ao lado da Casa das Madres,  fundada por Hebe de Bonafini, já falecida, que teve dois dos seus três filhos sequestrados e desaparecidos. Com apoio de professores universitários e de intelectuais argentinos e estrangeiros, a universidade popular promove cursos de direitos humanos, festivais e cursos de profissionalização.


O pessoal da universidade,  a associação das mães e a das avós, além de populares, participam às quintas-feiras, sempre às 15h30, da marcha da Praça de Maio, em que reivindicam o paradeiro das pessoas sequestradas e agregam demandas sociais à agenda. O grupo de Porto Alegre se juntou à marcha de nº 2.494, realizada dia 29 de janeiro.


“O propósito da universidade é formar pessoas com conhecimento sobre direitos humanos e compromisso social”, explica Demétrio Iramain, 68 anos, professor de História e jornalista. Para ele , “a luta é contra o fascimo e a exploração. Não somos um grupo de vítimas, somos um coletivo político que leva adiante a luta de nossos filhos. O fascimo não contempla questões de gênero, feminismo e outros temas que marcam os avanços sociais”.  E completou, “a reivindicação não acaba quando a demanda é atendida, ela é ampliada”. Durante a conversa com o grupo do Caminhos, Demétrio revelou que tem grande admiração por Pedro Stédile, liderança do MST- Movimento Sem Terra, que conheceu em Porto Alegre, no 1º Fórum Social Mundial- que agora completou 25 anos. 


Para que o grupo do Caminhos pudesse ter encontros com ativistas de direitos humanos, Cecília fez contatos com várias organizações utilizando os canais dos sites das entidades. “Nos contatos por e-mail eu escrevi sobre a história do Caminhos da Ditadura em Porto Alegre e solicitei agenda. As respostas foram muito positivas, as organizações chamaram sobreviventes da ditadura e netos resgatados para conversar conosco, porque a intenção, além da visita, é compor uma rede de ativistas, essa é uma forma muito interessante de fazer capacitação e ampliar nossa consciência política”, explica Cecília. 


Memória e testemunho


O prédio de três andares onde funcionou o centro clandestino de detenção da rua Virrey Cevallos, 630, foi declarado de utilidade pública em 2004. O local foi transformado em Centro de Memória e Promoção dos Direitos Humanos e aberto para visitação em 2009. Neste centro, o grupo do Caminhos encontrou Daniel Santucho Navajas, 49 anos, conhecido como “Neto 133”. Daniel deu um testemunho potente sobre a recuperação de sua identidade, que aconteceu somente em 2023.


Ele nasceu na prisão clandestina conhecida como Pozo de Banfield no dia 10 de janeiro de 1977, um setor do Exército argentino. Mais de 300 pessoas ficaram presas nesse local, incluindo quatro mulheres grávidas. Daniel é filho de Cristina Navajas, professora, e Júlio Santucho, também professor e ex-seminarista. Quando foi sequestrado, o casal tinha três filhos e Cristina estava grávida de dois meses. Os pais de Daniel eram militantes do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). Cristina permanece desaparecida. Júlio sobreviveu. Daniel Santucho Navajas é ativista de direitos humanos e protagonista do documentário Identidade Roubada, de 2024, e autor do livro Nieto 133- Mi Camino Hacia la Verdad, da editora Planeta.

A suposta irmã mais velha de Daniel foi quem o alertou de que não era filho biológico dos pais que acreditava ter, dúvidas que ele tinha desde os cinco anos de idade, sem nem saber explicar a razão. Em duas oportunidades, Daniel enfrentou o apropriador para saber a verdade, mas o homem, um ex-policial, sempre sustentou ser seu pai biológico. Ao procurar as Avós da Praça de Maio, o neto nº 133 pôde fazer um exame de DNA que confirmou a sua verdadeira identidade.  

Segundo o Ministério da Justiça e Direitos Humanos da Argentina, há cerca de trezentas pessoas com aproximadamente 45 anos, nascidas entre 1975 e 1983, que seguem desaparecidas. As Avós da Praça de Maio calculam que 500 bebês de presos políticos da ditadura argentina foram sequestrados e entregues para famílias de militares, abandonados em instituições de acolhimento ou vendidos. 


O gene das avós


A avó de Daniel, o neto nº 133, Nélida Navajas, morreu em 2012 sem o conhecer. Nélida é uma das fundadoras das Avós da Praça de Maio e contou com a ajuda do neto Miguel, irmão mais velho de Daniel, para liderar as buscas que duraram 46 anos. Em 1983, Nélida e Estela Carlotto, agora com 95 anos, viajaram aos Estados Unidos para conhecer a geneticista Mary Claire King e pedir um novo tipo de exame de DNA, que permitisse a identificação de uma pessoa não só pelos genes de mãe ou pai, mas também pelos genes das avós.


Em 1984, a premiada geneticista Mary-Claire embarcou para a Argentina com a questão resolvida. Ela conseguiu realizar o sequenciamento genético mitocondrial das avós para comparar com os genes de crianças que haviam sido apropriadas e determinar a ligação biológica entre elas. O procedimento recebeu o nome de  “índice de abuelidad”, o índice das avós. É importante destacar que em 1998, o ditador general Videla foi condenado, entre outros crimes graves, por ter colocado em prática o Plano Sistemático de Apropriação de Bebês. As primeiras condenações de Videla ocorreram em 1985, apenas dois anos após o fim da ditadura e o triunfo da democracia com Raúl Alfonsín.


ESMA, uma escola de tortura

O Sítio de Memória ESMA, inaugurado em 2015, foi declarado como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO- Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura em 2023. No local funcionou um centro clandestino de detenção, tortura e Eextermínio da Escola de Mecânica da Armada (ESMA). No edifício principal, que agora é museu, existiu o Cassino dos Oficiais. O museu é um dos 35 prédios erguidos em um terreno de 17 hectares onde há diversas instituições de memória e verdade distribuídas em 17 ruas internas.

Nesse local, o grupo de Porto Alegre foi recebido pelo mediador Guilhermo Amarilla Molfino, 48 anos. Ele é filho de um casal sequestrado pela ditadura e  nasceu na prisão. Guilhermo recuperou sua identidade em 2009 e tem três irmãos. Cinco mil sequestrados passaram pela ESMA e a história cruel do centro de torura e extermínio pode ser contada graças ao testemunho de poucos sobreviventes e de Andrea Fricmar.

Quando tinha onze anos, Andrea viu pela janela uma pessoa encapuzada e algemada sendo levada pelo pátio da ESMA, enquanto brincava com a filha de um comandante da escola militar.  Outro testemunho importante é o do gráfico Victor Basterra, que foi forçado a trabalhar como fotógrafo na ESMA e conseguiu esconder centenas de negativos de filmes que depois serviram de provas contra os torturadores. O mediador Guillermo explica que 85% dos presos tinham idade entre 16 e 35 anos. “Pessoas pobres e jovens eram presas pelo terrorismo de Estado, era um Estado de Terror”, salienta. Graças aos testemunhos, sabe-se que nasceram 37 crianças na ESMA, 14 delas recuperaram a identidade.

Os chamados “vôos da morte” levavam pessoas presas na ESMA para serem jogadas vivas no mar ou no rio da Prata. Pouco antes de entrarem no avião, as vítimas eram drogadas com um anestésico, o Pentotal, apelidado de PentaNaval pelos torturadores. Setenta corpos foram achados na praia. Depois disso, os genocidas colocaram pesos nos sequestrados para os corpos afundarem. 


Casa da Identidade


A Casa da Identidade é um espaço de memória gerido pela Associação das Avós da Praça de Maio e fica no mesmo prédio da Mostra da Linha Fundadora das Madres da Praça de Maio, onde há uma exposição permanente.  A Casa da Identidade tem o propósito de dar visibilidade à história de apropriação sistemática de crianças e recém-nascidos durante a ditadura argentina. A Casa guarda arquivos documentais, fotográficos e bibliográficos da organização, além de promover atividades educativas  e culturais.


Na Casa, o grupo do Caminhos foi recebido por Juan Pablo Moyano, 51 anos. Ele foi sequestrado em 1978, aos 18 meses de idade, e entregue a uma mulher que já estava com uma menina apropriada. Sua avó conseguiu localizá-lo por meio de uma foto, tirada quando ele era bebê, que foi distribuída pela Justiça por toda a Argentina, Juan Pablo já estava com sete anos, seus pais permanecem desaparecidos. 


“As mães que perderam seus filhos se transformaram em avós que procuram seus netos e netas e a luta prossegue”. Havia um plano estratégico para o roubo e o comércio de bebês”, diz Juan Pablo.


Em 2012, os militares foram condenados, entre eles o general Jorge Rafael Videla. Antes disso, porém, deputados da extrema direita tentaram impedir a prisão de subalternos criando a “lei da obediência devida e ponto final”, que acabou revogada. A Lei 23.492 foi promulgada em 1986, durante a presidência de Raúl Alfonsín, estabelecendo a paralisação dos processos judiciais contra os autores das detenções ilegais, torturas e assassinatos que ocorreram na ditadura militar.


A lei, junto com a sua complementar, a de Obediência Devida, foi considerada nula pelo Congresso Nacional em 2003, e finalmente declarada nula pela Corte Suprema de Justiça, por ser inconstitucional, em 14 de Junho de 2005, possibilitando que fossem reabertos os casos relacionados aos crimes contra a humanidade. O primeiro dos casos, responsabilizando Miguel Etchecolatz, ex- vice-comandante da Polícia Provincial de Buenos Aires, encerrou em setembro de 2006, estabelecendo jurisprudência ao reconhecer que o terrorismo de Estado durante a ditadura foi uma forma de genocídio.

Após a imersão no contexto da ditadura na Argentina, Anita revela que “é nossa intenção levar o Caminhos para outros estados do Brasil e outros países da América do Sul, expandir um pouco, porque vimos que as pessoas têm interesse em fazer uma viagem com esse foco. Muitas delas trabalham com este tema no Rio Grande do Sul, a maioria que fez a viagem para Buenos Aires é da área da História”.

Colocar comentário da Ciça sobre o roteiro.

Uma das mediadoras do Caminhos da Ditadura em Porto Alegre, Letícia Heinzelmann, 42 anos, jornalista, que participou da viagem para Argentina, avalia a experiência como “fundamental para conhecer os horrores da ditadura em nosso continente. Muitas iniciativas que vimos, de resgate da memória, são pertinentes para o Brasil”. E completa: “memória sempre, para o Nunca Mais!” Se houver outra viagem de imersão, Letícia pretende participar. 

O roteiro do grupo de Porto Alegre encerrou com uma visita ao Parque de La Memoria, criado em 1998, na orla do rio da Prata. No local há longas paredes com os nomes das 30 mil pessoas desaparecidas na Argentina durante a ditadura, além de instalações que simbolizam os horrores que aconteceram no país. O ambiente remete a um estágio de reflexão profunda e é uma visita necessária para os defensores da democracia e, principalmente, para quem desconhece os crimes bárbaros que são praticados em um regime ditatorial, onde a justiça é suprimida e os direitos são banidos. 




sábado, 24 de janeiro de 2026

 Propaganda pró Trump nas redes sociais


Donald Trump, presidente dos Estado Unidos (EUA), disse que acabou com oito guerras no mundo. Quais seriam? Falou também que a Groenlândia deve ser devolvida, como se alguma vez tivesse pertencido aos EUA. A ilha é território autônomo da Dinamarca desde 1814, mas os povos nórdicos estão lá desde o século 10.


As declarações de Trump imediatamente ganharam as redes sociais e foram compartilhadas por perfis de destaque, como o do bilionário Elon Musk, ex-funcionário da Casa Branca, e a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, por exemplo. Eu, que mesmo sem seguir esses perfis na rede X (ex-Twitter), recebi dezenas de posts com as declarações falsas de Trump. Quando interagi com o perfil da Embaixada, recebi o mesmo post traduzido para o português.


“As tecnologias de informação e comunicação (TICs) trabalham com modelos matemáticos e geolocalização”, explica o professor do centro universitário Uniritter, Jean Paul Lopes, especializado em Formação Pedagógica e graduado em Desenvolvimento de Sistemas. É por isso que meu comentário, interagindo com a postagem da Embaixada dos Estados Unidos, foi matematicamente analisado e geograficamente identificado como um post veiculado desde o Brasil. A inteligência artificial está aí para processar informação em milésimos de tempo e direcionar conteúdo, não do nosso interesse, mas do interesse do negócio! 


“O propósito das TICs tem muito mais a ver com o mercado do que com a veiculação da informação pura e simples. Os algoritmos são modelos matemáticos construídos para obter o melhor resultado. Há uma máxima nas TICs: quando o produto é de graça, tu és o produto, porque desenvolver dados é muito caro. Ninguém vai entregar nada de graça pra ti”, afirma o professor Lopes.


Se já é assim agora, imagine como será o cenário na eleição de 2026. O uso da IA está liberado. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve as mesmas recomendações fixadas na eleição de 2024 e divulgou uma minuta no dia 19 de janeiro deste ano. A revisão das regras sobre o uso de IA está a cargo do atual vice-presidente do TSE, ministro Nunes Marques (indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro), e que estará no comando do Tribunal durante as eleições de 2026. Haverá uma audiência pública sobre  o tema  nos dias 3 e 5 de fevereiro. 


Em 2024, o TSE proibiu o uso de qualquer publicação manipulada (as chamadas deepfakes) e determinou que o conteúdo produzido com uso IA deveria ser identificado. Mas essa identificação passa despercebida pelo público. Conhecida como “marca dágua”, ela é uma informação que entra como dado, ou seja, só fica sabendo quem é programador digital.

Um ponto importante da minuta do TSE, no entanto, é a determinação de que um perfil pode ser removido pela Justiça Eleitoral quando for "comprovadamente falso, relacionado a pessoa que sequer existe fora do mundo virtual (perfil automatizado ou robô) ou cujas publicações estejam voltadas ao cometimento de crime".

A robotização foi extremamente utilizada nas eleições majoritárias de 2018, quando Bolsonaro foi eleito. Nessa época, o presidente do TSE era o ministro Luiz Fux, que criou um conselho dentro do tribunal para avaliar fake news.  O uso de robôs só veio à tona graças a reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo e assinada pela jornalista Patrícia Campos Mello. O disparo em massa de mensagens instantâneas com o uso de robôs foi proibido pelo TSE em 2019. 

Centro Integrado


Certamente você já ouviu falar em “cartilha gay”, ou em “mamadeira de p*”, ou ainda que a “vacina contra Covid implanta um chip chinês na pessoa”. Esses três temas têm em comum o fato de serem fake news, ou seja, são desinformação, e as três surgiram durante campanhas eleitorais.


Pois bem, a justiça eleitoral colocou foco nesse assunto. O então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes, inaugurou em março de 2024 o Centro Integrado de Enfrentamento à Desinformação e Defesa da Democracia (CIEDDE), que tem como objetivo coordenar ações junto aos três poderes, órgãos da República e instituições na promoção da educação em cidadania, dos valores democráticos e dos direitos digitais.


Na ocasião, Moraes disse que “a vontade do eleitorado vem sendo atacada por milícias digitais desde 2018, que, ao utilizar fake news e discursos de ódio, pretendem desvirtuar o mercado livre de ideias”. O ministro informou também que cabe ao Centro, entre outras atribuições, combater a desinformação eleitoral; as deep fakes e os discursos de ódio, discriminatórios e antidemocráticos na esfera eleitoral. A eleição de 2026 estará a cargo da ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha.


Novo sangue


Nossos dados são o novo sangue das pessoas e o novo combustível das empresas. Quem afirma é o médico Felix Rigoli, ex-gerente de Sistemas de Saúde da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), entidade da Organização Mundial da Saúde(OMS), no período de 2000 a 2015, em Washington e também em Brasília.


Felix Rigoli, que atualmente coordena o Observatório de Desenvolvimento, Desigualdades em Saúde e Inteligência Artificial (Odisseia), do Núcleo de Bioética e Diplomacia (NETHIS) da Fiocruz/Brasília, destaca os riscos de nossos dados pessoais ficarem expostos em redes sociais e ilustra com um caso ocorrido nos Estados Unidos, onde uma rede de lojas coletava os dados das mulheres e classificava aquelas que tinham perspectivas de engravidar com o objetivo de enviar propaganda de fraldas e mamadeiras. 


Atualmente, essa mesma base de dados da loja está sendo usada pela polícia dos estados onde o aborto é criminalizado para classificar e ameaçar as mulheres que possam estar cogitando interromper a gravidez.  “Os executivos das Bigs Techs têm comentado muito em reuniões fechadas como é fácil obter os dados das pessoas”, revela Rigoli. “Elas fornecem as informações voluntariamente ou em troca de nada, ou de quase nada, colocando na rede milhões de dados pessoais”.


O Facebook coleta 52.000 pontos de dados de cada indivíduo, todos colocados voluntariamente pelas pessoas na ansiedade de publicar a cada instante. O Instagram multiplica por dez essa exposição, mostrando lugares, acompanhantes, uso de produtos e outras coisas. “Infelizmente, não há uma norma que possa proteger as pessoas de suas próprias condutas. Por isso criar consciência é tão importante”, diz o especialista.


BOX


Dados vazados


É possível verificar se nossos dados foram vazados na internet. Alguns sites fazem esse trabalho, como o Have I Been Pwned, que busca por seu e-mail em bancos de dados de vazamentos, e o DataBreach.com, que vasculha a dark web para encontrar os dados. O Banco Central também oferece ferramentas para verificar movimentações bancárias e identificar possíveis fraudes. 


Algumas opções de sites para verificar vazamentos:

Have I Been Pwned?

Digite seu e-mail ou número de telefone para saber se já ocorreu algum vazamento de dados. 

DataBreach.com

O site vasculha a dark web e informa se seus dados (como e-mail, senha, nome etc) já foram encontrados em vazamentos. 

Registrato do Banco Central

Para verificar movimentações bancárias e identificar possíveis fraudes, utilize o Registrado do Banco Central. 

Kaspersky

O aplicativo Kaspersky também tem um verificador de dados vazados.

Pesquise seu e-mail no Google

Digite seu e-mail entre aspas no Google para ver se ele aparece em sites ou fóruns que não deveriam ter acesso aos seus dados. 






domingo, 4 de janeiro de 2026

 Bugio é patrimônio cultural imaterial


Bugio é um macaco, é ritmo musical, é dança e agora é patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul. Nesta terça-feira (12) o Bugio assumiu oficialmente esse patamar em cerimônia realizada no Multipalco Eva Sopher, promovida pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae). O ato contou com a participação de tradicionalistas das cidades serranas de São Francisco de Assis e de São Francisco de Paula, onde o gênero musical surgiu. Os municípios realizam festivais dedicados exclusivamente a este ritmo, o Querência do Bugio e o Ronco do Bugio, respectivamente.


A origem do ritmo remonta aos tropeiros do século XIX que imitavam o ronco do bugio em suas gaitas de fole. Mas o gênero musical tem outras peculiaridades, agregando também elementos da cultura indígena da etnia Guarani. O pesquisador e luthier de acordeão Israel Da Sois Sgarbi, de São Francisco de Paula, autor do livro “O ritmo musical do bugio”, explica que os tropeiros e os indígenas se comunicavam muito por mímica em seus acampamentos, sempre próximos de matas com bugios.


Nesses encontros, onde havia festa e danças, era utilizada uma espécie de chocalho feito de taquara para bater no solo e marcar o ritmo, o takuapu, geralmente usado pelas mulheres. Este teria sido o primeiro compasso do bugio. Mais tarde, os tropeiros agregaram o acordeão, o violão e a rebeca. O takuapu é feito de um tubo oco de bambu usado em cantos, danças e também em rituais.


Já a dança do bugio reproduz os passos do primata. É um pouco parecida com a Vanera, mas são dois passos, um pulinho, e mais dois passos, de modo rápido. Na década de 1950 os irmãos Bertussi gravaram em um estúdio do Rio de Janeiro o primeiro disco com o novo ritmo, “Casamento da Doralice”. 


O ato que transforma o Bugio em patrimônio cultural imaterial gaúcho faz parte das comemorações do Dia Estadual do Patrimônio Cultural, comemorado sempre no terceiro fim de semana do mês de agosto. No dia 15, sexta-feira, às 19h, o marco das comemorações será o badalo simultâneo de sinos de igrejas e tambores de terreiros em diversos municípios, incluindo Porto Alegre.


Em seguida, a Casa de Cultura Mario Quintana, no Centro Histórico de Porto Alegre, será palco da apresentação de um coro com 150 vozes, distribuídas pelas janelas, passarelas e sacadas da instituição, que cantará músicas populares do Rio Grande do Sul. O grupo é formado por integrantes de 27 coros associados à Federação de Coros do RS (Fecors), sob regência do maestro Eduardo Alves.


Bugio, primata americano


O bugio também é chamado de macaco-ruivador, guariba e barbado. Ele é um Aloutta, gênero de primata natural das Américas. A espécie tem uma ampla distribuição geográfica, desde o México até o norte da Argentina. São animais de porte relativamente grande e de dieta predominantemente folívora, ou seja, consomem basicamente folhas, mas também podem consumir frutas e ovos. Vivem em grupos de até 18  indivíduos, com um macho dominante e muitas fêmeas.


Os machos emitem uivos altos e graves, que servem para marcar território, comunicar a localização do grupo e estabelecer hierarquias sociais. As fêmeas também vocalizam, mas suas chamadas são mais suaves. O ronco do bugio pode ser ouvido a quilômetros de distância.




 Laboratório da UFRGS na Antártica é tema de documentário

O laboratório Criosfera 1, na Antártica, é a locação escolhida pela National Geographic para o documentário Pole To Pole, que estreia dia 13 de janeiro de 2026 na plataforma de streaming Disney+, apresentado pelo ator Will Smith. Inaugurado em 2012, o Criosfera 1 é uma iniciativa da UFRGS- Universidade Federal do Rio Grande do Sul em parceria com várias instituições de pesquisa científica.

Will Smith esteve no Criosfera 1 no verão antártico de 2022 para mostrar como os pesquisadores trabalham e lideram pesquisas sobre as mudanças do clima. O ator, de 57 anos, que também é músico e produtor, é natural da Filadélfia, Estados Unidos, e conquistou o Oscar de melhor ator, em 2022, com o filme King Richard.

Além da UFRGS, Criosfera 1 reúne pesquisadores parceiros da Uerj- Universidade do Estado do Rio de Janeiro, do Inpe- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, e outros usuários da plataforma científica como a Universidade de São Paulo (USP), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). O Criosfera 1 foi possível graças aos investimentos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), CNPq/Proantar, Comissão Interministerial para Recursos do Mar, Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), FAPERJ e Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (Fapergs).

100 dias


Após três anos de produção, a série acompanha Will Smith em uma jornada de 100 dias pelos sete continentes, dos campos de gelo na Antártica à floresta amazônica, das montanhas do Himalaia aos desertos africanos, das ilhas do Pacífico aos icebergs do Ártico. Na expedição de polo a polo, Smith viaja acompanhado por cientistas, exploradores e especialistas locais, participando de descobertas científicas e criando conexões com as comunidades por onde passa. 

 

A reitora da UFRGS, professora Márcia Barbosa, comentou sobre o documentário. “Ele dá publicidade a algo que a universidada faz há muito tempo, que é a pesquisa científica na Antártica, medindo a relação entre as emissões de gases e as mudanças climáticas. Hoje a UFRGS é uma liderança reconhecida, coordenando o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia no tema. Realizamos igualmente um projeto de circunavegação do Polo Sul sob a liderança do nosso professor, o glaciólogo Jefferson Cardia Simões”. A reitora destaca ainda “que esta liderança é fundamental para entendermos os efeitos das enchentes e das secas que afetam o Rio Grande do Sul”. 

O Criosfera 1 foi instalado no verão de 2011/2012 por uma expedição do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (INCT da Criosfera), usando logística contratada da Antarctic Logistics Expeditions (ALE). O módulo fica no manto de gelo da Antártica Ocidental e é dotado de sistemas eólico e solar que permitem o seu funcionamento de forma ininterrupta, demandando apenas uma manutenção de 20 dias no mês de janeiro de cada ano. 

Criosfera 2

Em janeiro de 2023, pesquisadores da UFRGS concluíram com sucesso a instalação do Módulo Científico Criosfera 2.  Ele foi implantado pelos pesquisadores no interior do continente antártico.

O Criosfera 2 está localizado sobre uma calota de gelo com aproximadamente 600 metros de espessura, ao sul do Mar de Weddell, com vista para a montanha mais alta da Antártica, o maciço Vinson com 4.897 metros de altitude. A temperatura no Criosfera 2, durante o inverno, pode cair a 40 graus negativos.

É a partir dessa região que as massas de ar frio provenientes do platô polar abastecem o mar de Weddell, no inverno, e são responsáveis pela intensificação de eventos extremos e ondas de frio no Sul do Brasil. O módulo funciona em condições climáticas especiais, porque está instalado a 2,2 mil metros ao Sul da Estação Brasileira Antártica Comandante Ferraz, contra os 900 metros do Crioesfera 1. 

Para saber mais, leia a entrevista com o glaciólogo Jefferson Cardia Simões:

https://www.brasildefato.com.br/2025/02/20/alem-de-catastrofes-climaticas-degelo-cria-nova-geopolitica-diz-glaciologo-da-ufrgs/






domingo, 14 de dezembro de 2025

 Congresso Nacional de Jornalistas é marco histórico


Evento define agenda de lutas e declara enfrentamento à censura



Jornalistas de todo o Brasil participaram do 40º Congresso Nacional da categoria, encerrado na sexta-feira  (12), em Brasília. Este foi o primeiro congresso presencial após a pandemia de Covid e do período de governo do ex-presidente da República Jair Bolsonaro, caracterizado por ataques à imprensa e estímulo à violência contra jornalistas.


“A gente viveu anos de muita hostilidade, desinformação e violência contra o nosso trabalho, então estar aqui agora, reunida com colegas do país inteiro, tem um significado enorme, ainda mais em uma semana na qual a extrema direita protagonizou mais um episódio de violência contra jornalistas e cerceamento do nosso trabalho dentro da Câmara dos Deputados. Os ataques não ficaram no passado e esse encontro mostra o quanto precisamos estar organizados e unidos”, afirmou a jornalista Sílvia Fernandes, que participou do evento junto com a colega Stela Pastore, ambas representando o Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul (SindjorRS), 


Ela destacou também a participação dos jornalistas que estiveram na audiência da Comissão de Direitos Humanos do Senado, conduzida pelo senador Paulo Paim (PT/RS), que mostrou como o discurso de ódio afeta a liberdade de imprensa e também como o assédio judicial é usado para calar jornalistas e veículos, principalmente os independentes, que fazem denúncias e jornalismo investigativo. A Fenaj- Federação Nacional dos Jornalistas apresentou o relatório anual que denuncia a violência contra jornalistas, produzido em conjunto com os sindicatos dos Estados. “Foi uma atividade que deu visibilidade aos graves problemas enfrentados pela categoria e mostrou a necessidade de pautar a formulação de políticas para esse enfrentamento”, salientou Fernandes.


Os jornalistas representantes de 22 unidades da Federação aprovaram propostas que definem as principais bandeiras de luta da categoria, algumas já incorporadas pela Fenaj e sindicatos, como a campanha salarial nacional, que unifica e fortalece os sindicatos nas negociações salariais, a PEC- Projeto de Emenda à Constituição do Diploma, pela volta da exigência do diploma para obtenção do registro profissional, a regulação das Big Tecs,como a Meta, por exemplo, que obrigue as plataformas a remunerar o uso do conteúdo jornalístico e também a defesa profissional contra a precarização decorrente da terceirização, que empurra jornalistas para o uso de CNPJ como vínculo de trabalho, desobrigando as empresas do cumprimento de benefícios legais.


Além dessas questões, o Congresso também discutiu sobre o uso da IA- Inteligência Artificial e os impactos que provoca na profissão. Uma das teses aprovadas definiu a necessidade de estabelecer princípios que orientem o uso da IA no trabalho jornalístico e que preservem os direitos dos profissionais. O Congresso ainda decidiu pela realização de seminário nacional para discutir a reformulação do Código de Ética dos Jornalistas, culminando com a realização de um congresso extraordinário de reformulação.


As representantes do Sindjors apresentaram duas teses e uma moção que foram aprovadas no Congresso. A moção é em apoio à TVE e à Rádio Cultura FM, que sofrem processo de desmonte desde 2016, e as teses são a que propõe a criação de um Coletivo Jurídico Nacional para fortalecer de forma estratégica a Fenaj, e a que exige a jornada legal de  cinco horas diárias para jornalistas no serviço público.


A jornalista Stela Pastore destaca que o ponto alto do Congresso foi o lançamento oficial da Campanha Salarial Nacional Unificada dos Jornalistas 2026. “A iniciativa visa unificar a luta dos sindicatos estaduais por reajustes dignos e pela manutenção de direitos. O debate denunciou a "pejotização" (contratação via Pessoa Jurídica) não como empreendedorismo, mas como uma armadilha e fraude trabalhista que retira direitos básicos, como férias e previdência, mantendo a subordinação do trabalhador. A mensagem foi clara: jornalista é trabalhador e exige respeito à CLT”.


Laura Santos Rocha, jornalista que preside o SindjorRS, disse que o Sindicato fez um esforço enorme para conseguir encaminhar as duas colegas jornalistas ao evento, “por entender a importância das entidades sindicais trabalharem de forma conjunta para tentar, no mínimo, diminuir os impactos que os desmontes trabalhistas estão causando na nossa categoria, tirando direitos de trabalhadoras e trabalhadores da comunicação. Pensar de forma ordenada ações futuras é sempre mais eficaz”.


Feito histórico


A coordenadora-geral do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SindjorDF), Bibiana Garrido, destacou que o 40° Congresso Nacional é um feito histórico por reunir centenas de profissionais e estudantes em torno da discussão sobre o futuro da categoria. “Ganhou mais força, ainda que por um motivo infeliz, depois do episódio de censura e violência contra profissionais da imprensa ocorrido no Congresso Nacional, com o presidente da Casa, deputado Hugo Motta (Republicanos/PB), impedindo o acesso da imprensa ao plenário”, lembrou Garrido.


Ela afirmou que “casos como esse mostram que o momento é de união e de mobilização coletiva, porque não apenas sofremos violência física durante o exercício da profissão, como nós, jornalistas brasileiros, estamos seguidamente lidando com perdas de direitos. Desde a derrubada da obrigatoriedade do diploma e a contrarreforma trabalhista, a precarização, e a pejotização do trabalho das e dos jornalistas têm adoecido profissionais com baixos salários, acúmulo de função, contratos irregulares e exposição a violações diversas. Nós podemos reverter esse cenário e conquistar o respeito à nossa categoria, com condições dignas de trabalho, por meio da luta e engajamento da categoria com seus coletivos, sindicatos e demais entidades representativas”. 


Apoio institucional


O 40º Congresso Nacional dos Jornalistas contou com o patrocínio da Caixa Econômica Federal (CEF), Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), Banco do Nordeste (BNB) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), além do apoio da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), Associação dos Docentes da UnB (Adunb), Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco), Sindicato dos Fazendários do Ceará (Sintaf-CE), Sindicato dos Bancários do DF e Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes).


Relatório da Fenaj 


O Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil, elaborado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ ), analisa o cenário de agressões, intimidações e censura contra os profissionais da imprensa no ano de 2024. Embora tenha ocorrido uma redução no número total de ataques a jornalistas, em comparação com os anos anteriores, o cenário ainda é alarmante e revela características preocupantes sobre a continuidade da violência contra os operários e operárias na notícia.


Em 2024, o número de ataques contra jornalistas teve redução, com o registro de 144 casos. Isso representa uma considerável queda, considerando o auge da violência nos anos do governo Bolsonaro (PL), que, desde o início de sua gestão, em 2019, tornou-se um dos principais agressores da imprensa, com discursos que incentivaram ataques físicos e verbais a jornalistas, em especial aqueles que confrontavam o discurso de negacionismo e desinformação.


Entre os tipos mais recorrentes de violência em 2024, o que se destacou foi o assédio judicial, uma das práticas mais graves contra o exercício profissional. O uso do sistema de justiça como instrumento de intimidação e censura foi a estratégia adotada por políticos, empresários e líderes religiosos autores dessa estratégia. Essa instrumentalização da lei visa silenciar profissionais da imprensa por meio de processos judiciais abusivos. Outro tipo de violência foram as agressões físicas e as ameaças presenciais. No total, foram contabilizados 30 casos de agressões físicas e 27 ameaças diretas. Cabe destacar que as agressões aumentam em ano eleitoral. A íntegra do relatório de 46 páginas está disponível no link 

https://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Relatorio-da-Violencia-2024.pdf









 Todos perdem com a ditadura


Fabico/UFRGS realiza evento com a participação da

presidenta da Comissão Memória e Verdade



O 6º Ciclo de Seminários Arquivos, Memória e Direitos Humanos encerrou na noite de quinta-feira (11), no Auditório II da Fabico- Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação com palestra da professora Roberta Baggio, presidenta da Comissão Memória e Verdade  (CMV) Enrique Serra Padrós da UFRGS- Universidade Federal do Rio Grande do Sul.  O tema escolhido pelas alunas foi “A Memória da Ditadura pelos Olhos do Jornalismo”, com coordenação do professor do curso de Arquivologia Jorge Eduardo Enriquez Vivar.  


O encontro, que coincidiu com o aniversário de um ano da Comissão Memória e Verdade, abriu com um painel apresentado pelas alunas destacando o papel da imprensa na cobertura do período ditatorial, mesmo sob forte censura. No entanto, salientaram que os grandes veículos, inicialmente, apoiaram o golpe militar de 1964. Vários jornais e revistas foram retirados das gráficas e dos pontos de venda durante o período de arbítrio que se estendeu até 1985.


O auditório da Fabico, ocupado majoritariamente por jovens, foi descobrindo aos poucos que a ditadura perseguiu estudantes, funcionários e professores da universidade, culminando com a expulsão e a exoneração de dezenas de pessoas. E fora do espaço acadêmico, prendeu, torturou e assassinou centenas de pessoas que se opuseram à ditadura, como ocorreu com o jornalista Vladimir Herzog, assassinado em 1975, em São Paulo, quando se apresentou para depor. Em honra a Herzog, 50 anos após seu assassinato, ex-estudantes da Fabico recolocaram, neste ao de 2025, a placa com seu nome no diretório acadêmico. Placa que havia sido retirada pela repressão em 1975.


Após a apresentação do painel das alunas,  a professora Roberta Baggio iniciou sua fala afirmando que “desvelar o papel da ditadura dentro da universidade é a missão da Comissão Memória e Verdade”. Ela explicou que a Comissão da UFRGS foi uma das últimas a ser criada no Brasil no âmbito do espaço acadêmico. Essa era uma recomendação do Ministério Público Federal e que vinha sendo protelada. Com a eleição e a posse da reitora Márcia Barbosa, em 27 de setembro de 2024, a Comissão pode, finalmente, ser criada e sua instalação aconteceu em dezembro. Agora, em 2025, a Comissão completou um ano. 


A professora Baggio elogiou a relevância do evento e a iniciativa das alunas e do professor Jorge Eduardo Enriquez Vivar “porque este é um encontro geracional. É importante que as novas gerações saibam que a ditadura foi nefasta para toda a Nação, não foi apenas no ambiente universitário. Todos perdem na ditadura”. Ela disse ainda que “temos uma dívida moral com as pessoas daquela época, que viveram no período da ditadura e a enfrentaram”.


A Comissão Memória e Verdade é formada por nove mulheres e tem duas grandes frentes de trabalho. Uma delas é organizar os arquivos documentais, realizando visitas a várias unidades da UFRGS. A CMV esteve na Fabico, onde o material está bem organizado. Outra frente, é a de testemunhos, que também conta com o apoio técnico da Fabico. Estão sendo gravados testemunhos com sobreviventes da ditadura, são ex-alunos, ex-servidores e ex-professores que foram perseguidos, expulsos ou banidos.


A presidenta da Comissão revelou que “gostaria que a UFRGS tivesse vários marcos para assinalar os espaços de resistência à ditadura, como é o monumento em homenagem ao professor Enrique Serra Padrós e que empresta seu nome à Comissão”. O monumento fica próximo à Reitoria. “E a placa com o nome do jornalista Vladimir Herzog, recolocada no diretório acadêmico da Fabico 50 anos após o assassino do jornalista por agentes da ditadura”, destacou Baggio.