terça-feira, 26 de maio de 2026

 Moanas gaúchas conquistam medalha na canoagem


Remadoras gaúchas enfrentam o frio de quase zero grau centígrados às 5 horas da manhã para treinar durante os  meses de inverno. Em Porto Alegre, capital do estado, não é diferente. Remar no Guaíba é um teste diário de resiliência e de saúde. Aí você vai dizer: mas nos países frios, como Canadá e Suécia, ninguém para de treinar mesmo quando neva. Acontece que nesses países há centros de treinamento cobertos, com piscinas especialmente projetadas para remadas fixas. É outro mundo.




Treinar para competir na prova Volta da Ilha de Porto Belo, dias 16 e 17 de maio, em Santa Catarina, foi um grande desafio para as remadoras da Equipe Kalola, coordenada pela atleta Adriana Peppl, 58, professora e graduanda em Educação Física. Remadoras treinadas por ela conquistaram o primeiro e segundo lugares em provas de OC1 e V3 em Porto Belo. Essas Moanas contemporâneas são veteranas, nem tanto na canoa polinésia, mas na vida. Márcia Turcato, jornalista, meia maratonista, tem 70 anos; Jeane kostelnaki Trintinaglia, pedagoga, 61; Maristela Assunção da Rosa, fisioterapeuta e ciclista, 54; Karen Loss, servidora pública, 54; e  Daniela Rossato, dentista, 53. Todas dedicaram inúmeras horas de seus dias gelados para treinar com emoção e propósito.


Cada remadora tem sua própria motivação para se dedicar à canoa polinésia. Maristela começou a remar após a pandemia de Covid. Com o fim do isolamento social, ela buscou a prática de um esporte coletivo. “A canoa agrega e me dá sensação de liberdade”, afirma. Márcia começou a remar no Lago Paranoá, em Brasília, há quatro anos, para melhorar a respiração em provas de corrida de rua e se apaixonou pelo esporte e pela cultura em torno da canoa polinésia. Daniela rema há uma década e percebe que a canoa tem uma conexão com o esporte e com o prazer. Karen é uma praticante assídua de musculação, rema há cinco anos e tem foco total em disciplina e alto desempenho. “Sou competitiva”, afirma. Jeane conta que sua relação com a canoa é quase terapêutica. “Meu corpo e mente ficam extremamente saudáveis”. 


A treinadora desse grupo focado, que ainda inclui mais atletas, mas que não competiram em Porto Belo, Adriana, é a grande maestra dessa engrenagem. Empreendedora single da Kalola, ela rema desde 2015, mas sua relação com esporte náutico é mais antiga, começou na adolescência com a prática do bodyboard e depois passou para o Stand Up Paddle. Adriana já participou de várias provas, desde festivais, como o Aloha e o Viva’a, a campeonatos estaduais e um internacional, realizado em 2024 no Havaí. 



BOX


Entrevista com Adriana Peppl sobre o cenário da canoa polinésia no Sul do Brasil



P- Como gestora de uma base, qual a tua avaliação sobre a participação das mulheres na canoagem em Porto Alegre e no RS de um modo geral?


R- O cenário atual revela pontos fundamentais sobre essa presença, que são

protagonismo e liderança. As mulheres deixaram de ser apenas praticantes para assumirem papéis de liderança no estado. Temos mulheres na gestão de clubes, comandando bases, atuando como instrutoras e capitãs de equipes. Essa liderança feminina atrai e encoraja novas remadoras, criando um ambiente acolhedor e seguro para quem está começando.


A canoa havaiana carrega em sua essência o espírito de equipe e o acolhimento. No RS, as mulheres abraçaram fortemente esse conceito. Vemos a formação de tripulações exclusivamente femininas que buscam o esporte tanto pela saúde e conexão com a natureza quanto pela rede de apoio e amizade que se cria fora da água.


Em Porto Alegre, as águas do Lago Guaíba têm sido o cenário perfeito para essa expansão da canoagem. A facilidade de acesso à prática náutica na capital permitiu que muitas mulheres incluíssem o remo na rotina diária, equilibrando a vida profissional e familiar com o esporte.


Mas é preciso destacar que, apesar do Guaíba ser um cenário maravilhoso, ele impõe barreiras físicas reais. Como Porto Alegre recebe o escoamento de várias bacias hidrográficas do estado, períodos de chuvas intensas mudam completamente a dinâmica do lago. O nível da água sobe, a correnteza fica perigosa e o acúmulo de detritos, como galhos e troncos flutuantes, exige suspender os treinos por dias, algo que afetou profundamente a rotina de todos os clubes nos últimos anos, especialmente na grande enchente de 2024.


A água doce e o regime de ventos do Guaíba exigem cuidados constantes com o assoreamento de margens e a manutenção das estruturas de ancoragem e rampa das bases. Superar esses obstáculos é o que dá às remadoras do Sul aquela garra e resiliência tão características. Quem consegue manter a consistência treinando no inverno gaúcho e dominando o vento do Guaíba está pronta para remar em qualquer lugar do mundo.


P- Em comparação com centros de treinamentos mais antigos, como no Espírito Santo, São Paulo e Rio de Janeiro, como você avalia o desempenho das remadoras em Porto Alegre?


R- Avaliar o desempenho das nossas remadoras em comparação com as de outros estados exige olhar para duas vertentes: o tempo de estrada e a natureza das nossas águas. Os clubes de canoa polinésia do eixo RJ-SP-ES estão localizados no berço da canoa havaiana no Brasil. Eles têm décadas de tradição, um volume massivo de atletas, competições estaduais consolidadas e, acima de tudo, o mar aberto como quintal. O Rio de Janeiro e o Espírito Santo, por exemplo, formam remadoras acostumadas com a ondulação do oceano, a arrebentação e a leitura de correntes marítimas complexas desde o primeiro dia na canoa.


Quando olhamos para Porto Alegre, o nosso cenário é diferente, mas o desempenho das nossas atletas surpreende positivamente, inclusive temos atletas que já despontaram no cenário Internacional, compondo a equipe que participou do Mundial de Sprint no Hawaii, em 2024.


Mas o Lago Guaíba é um excelente professor. Ele pode parecer calmo, mas quem rema aqui sabe que ele muda de humor muito rápido. O vento minuano ou as formações de "carneirinhos" criam um tipo de ondulação curta, picada e muito técnica, que exige das remadoras de Porto Alegre um controle de leme e uma cadência de remada extremamente refinada.


Embora nossa história no esporte seja mais recente que a do Sudeste, a evolução técnica das gaúchas tem sido geométrica. As mulheres buscam muita informação, investem em clínicas de técnica, assistem a circuitos nacionais e se dedicam com rigor aos treinos de força e de resistência. O gap técnico que existia há alguns anos diminuiu drasticamente.


Em termos de força física e mental, as remadoras gaúchas não ficam atrás de nenhum grande centro. Quando as nossas atletas saem para competir em festivais, estaduais e até internacional, elas enfrentam o desafio extra de adaptar a leitura de mar aberto, mas compensam com uma conexão de equipe técnica, sincronia e uma entrega absurda na água.


Se os clubes mais antigos ainda levam vantagem pelo volume de atletas de elite e pela vivência diária no mar, Porto Alegre compensa com qualidade técnica, dedicação e resiliência. Não estamos mais apenas participando; as remadoras da cidade estão construindo uma identidade técnica forte, mostrando que a água doce do Sul forma atletas prontas para qualquer mar de almirante ou ressaca.


P- Quais os principais obstáculos para treinar no sul do país?


R- Treinar no Sul Brasil, especialmente em Porto Alegre, traz um conjunto muito específico de desafios que os centros de treinamento do Sudeste e Nordeste raramente enfrentam. Quem gerencia uma base ou treina por aqui sabe que a nossa rotina exige uma dose extra de resiliência. Os principais obstáculos são o clima e as estações bem definidas


Diferente do resto do Brasil, onde o clima varia pouco ao longo do ano, o Rio Grande do Sul tem estações muito extremas, o que impacta diretamente a consistência dos treinos. Remar no inverno gaúcho exige superação. Enfrentar madrugadas ou fins de tarde com temperaturas de um dígito, e sensações térmicas ainda mais baixas devido ao vento, afasta os praticantes recreativos e exige investimentos pesados em vestuário técnico, como roupas de neoprene e corta-vento.


O vento minuano é o maior adversário do remador. No Sul, ventos fortes e frentes frias são frequentes, muitas vezes inviabilizando a saída da canoa por questões de segurança ou transformando um treino técnico em uma batalha de pura sobrevivência contra a correnteza.


Além disso, o eixo principal das grandes competições de Va'a no Brasil, como o Circuito Brasileiro, ainda está concentrado no Sudeste e Nordeste. O custo do deslocamento para as atletas do Sul competirem em nível nacional é alto.Deslocar equipes inteiras, pagar passagens, hospedagem e, principalmente, arcar com o frete ou aluguel de canoas de competição nesses estados torna o esporte muito caro para quem quer evoluir no ranking.


Embora o esporte esteja crescendo no Rio Grande do Sul, o número de eventos e a quantidade de atletas competindo localmente ainda são menores do que nos outros centros do país , o que reduz o ritmo de competição interna.


P- Como você se prepara como remadora e como instrutora de canoagem?


R- Se preparar para atuar nessas duas frentes exige um equilíbrio constante entre a alta performance física, como remadora, e a excelência pedagógica e de segurança como instrutora e gestora. É um papel duplo onde um lado alimenta o outro. A vivência na água me dá repertório para ensinar, e o estudo para ensinar refina a minha própria técnica.


Divido essa preparação em pilares fundamentais: a disciplina e a conexão como remadora; treinamento híbrido; leitura da água e do clima; fortalecimento mental; segurança, técnica e cultura; estudo e capacitação contínuos. Minha rotina envolve treinos específicos na água e parte da minha preparação diária é analisar a meteorologia, a canoa polinésia exige resiliência, especialmente nos dias de inverno severo, para guiar os alunos e a evolução do clube, o foco muda da performance individual para o desenvolvimento do coletivo, eu invisto constantemente em clínicas técnicas, cursos de biomecânica da remada e atualizações sobre fisiologia do esporte. O objetivo é entender a individualidade biológica de cada aluno, adaptando o treino para quem busca performance ou para quem está ali pela saúde e bem-estar.


A preparação de uma treinadora exige domínio absoluto de protocolos de resgate e navegação. Garantir que a equipe saiba exatamente como agir em uma situação de virada da canoa, o huli, e sempre estar atenta ao uso do flutuador. Ser treinadora de canoa polinésia não é apenas ensinar a remar. Minha preparação envolve estudar a história, a tradição e os valores polinésios, como o conceito de Ohana — família, e a conexão com a natureza, para transmitir aos alunos que cada remada é um ato de respeito coletivo e sincronia.


P- Porque até hoje não existe uma base profissionalizada em POA? Vemos pessoas com outras atividades e que dedicam algumas horas do dia, ou dias da semana, para treinar equipes, mas ninguém tem a canoa como uma atividade profissional que lhe dê sustento financeiro. A resposta pode ser o clima, mas um CT indoor resolveria. É preciso empreender? É preciso ter um patrocínio?


R- Essa é uma provocação excelente e toca na ferida do desenvolvimento do esporte na nossa região. A realidade de Porto Alegre ter a VA’A baseada no "amor à camisa" e no esforço de profissionais multifacetados — que dividem seu tempo entre outras profissões e a gestão das bases — não se deve a um único fator, mas a um conjunto de barreiras estruturais, culturais e de mercado.

Para entender por que ainda não temos essa profissionalização plena e o sustento exclusivo vindo da canoa, precisamos analisar alguns pontos. Um deles é o  mito do clima e o "CT Indoor".  O clima do Sul afasta o praticante recreativo no inverno, mas o atleta de alto rendimento treina na geada. Um CT indoor, com simuladores de remada, tanques de água estáticos e preparação física, resolveria, sim, a consistência dos treinos técnicos e físicos nos meses mais frios.

Mas não temos por conta do alto custo de implantação. Montar um tanque de remada profissional e uma estrutura de academia voltada para o Va'a exige um investimento financeiro pesado, cujo retorno- através de mensalidades, no cenário atual, demoraria anos para se pagar.


O perfil de quem abre um clube de canoa, historicamente, é o do apaixonado pelo esporte. A pessoa rema, ama o estilo de vida, compra uma canoa e começa a dar aulas. Mas existe uma diferença enorme entre ser um excelente instrutor/remador e ser um gestor de negócios. Para a canoa dar sustento financeiro exclusivo a uma equipe de profissionais, a base precisa ser gerida como uma empresa de médio porte.


Uma base profissionalizada não pode viver apenas de mensalidade de alunos. Ela precisa faturar com eventos corporativos, turismo náutico programado, venda de vestuário e equipamentos próprios, clínicas especializadas e escolinhas de base contratadas por colégios ou clubes tradicionais. É preciso ter pessoas dedicadas exclusivamente ao marketing, financeiro e administrativo, liberando os treinadores para focarem apenas na técnica e na água. Enquanto o dono do clube tiver que lavar a canoa, responder o WhatsApp de alunos, fazer o financeiro e dar a aula, o negócio não escala.


O patrocínio é fundamental, mas o mercado corporativo gaúcho ainda enxerga a canoa havaiana como um esporte "de nicho" ou puramente recreativo. Para atrair grandes marcas da iniciativa privada ou via Leis de Incentivo ao Esporte, o ecossistema do Va'a em Porto Alegre precisa entregar visibilidade e profissionalismo. Empresas patrocinam projetos que geram mídia, responsabilidade social ou ativação de marca robusta. Criar uma federação gaúcha forte, um circuito estadual profissional com transmissão ao vivo e projetos sociais estruturados, são os caminhos para abrir o bolso dos grandes patrocinadores do estado.


Porto Alegre não carece de público ou de águas maravilhosas, o Guaíba é uma mina de ouro para os esportes náuticos. O que falta para a virada de chave da profissionalização é capital inicial de giro e mentalidade estritamente empresarial. O mercado está amadurecendo. O "boom" da Semana Náutica de Porto Alegre, realizada em dezembro de 2025, atraiu olhares. O profissional que conseguir unir a paixão pela cultura Polinésia a um plano de negócios agressivo, buscando investidores-anjos, e não apenas alunos, será o primeiro a viver exclusivamente da canoa em Porto Alegre e a ditar as regras do novo mercado náutico no Sul.



segunda-feira, 27 de abril de 2026

 Primeiro de Maio na Praça da Alfândega desde 1892


No local aconteceu a primeira manifestação pública no Brasil pelo 1º de Maio. Sindicalistas iniciam campanha pela construção de um monumento no local



A Praça da Alfândega conta a história da cidade e do movimento operário gaúcho. A primeira manifestação em espaço aberto pelo 1º de Maio aconteceu na praça em 1892. E a primeira greve de trabalhadores e trabalhadoras do Rio Grande do Sul, em 1906, teve a praça como local de concentração. A greve, que em 2026 completa 120 anos, mobilizou mais de cinco mil trabalhadores e parou a cidade. E foi na praça, naquele ano, que nasceu a Federação Operária do Rio Grande do Sul, uma ancestral das atuais centrais sindicais.


A proposta de erguer um monumento à classe trabalhadora na praça é uma iniciativa de um grupo de técnicos e técnicas administrativos da Ufrgs, da Ufcspa e do IFRS, que fazem parte do sindicato da categoria, a Assufrgs, e criaram uma Comissão de Memória. “Dentro da Comissão surgiu a ideia de propor para outras entidades a criação de um monumento para o 1º de Maio. Isso se dá diante da falta de referências à memória da classe trabalhadora, ao movimento sindical e ao movimento operário em Porto Alegre”, explica Frederico Duarte Bartz, filiado à Assufrgs, mestre e doutor em História e idealizador do curso de extensão Caminhos Operários em Porto Alegre, na UFRGS.


Para viabilizar o projeto, a Comissão da Memória do sindicato lança uma campanha no dia primeiro de maio voltada para os sindicatos, organizações culturais e demais grupos que tenham vínculo com a classe trabalhadora, para impulsionar um financiamento coletivo para a construção da obra. Ao mesmo tempo, o grupo fará uma mobilização junto aos deputados e vereadores para que seja aprovada a colocação do monumento na Praça da Alfândega.


O local é estratégico, foi da praça que saiu a primeira caminhada de Primeiro de Maio realizada no Brasil, em 1892, seis anos após o assassinato de trabalhadores em Chicago, EUA, em 1886, que reivindicavam a redução da jornada de 14 horas para oito horas. A data do evento em Chicago inspirou a criação do dia do trabalhador e da trabalhadora em primeiro de maio. Antes da manifestação em Porto Alegre, houve apenas atos pelo Primeiro de Maio em teatros, em São Paulo e no Rio de Janeiro.


A partir da praça, os trabalhadores saíram em caminhada até à Floresta- primeiro bairro operário de Porto Alegre, e fizeram algumas paradas para debates, como no Salão Cosmopolita, na rua Dr. Flores, e no final da tarde encerraram a manifestação com um picnic na Chácara da Sociedade Beneficente Alemã, localizada nos altos da rua Ramiro Barcelos, no bairro Independência. O primeiro de maio seria incorporado ao calendário oficial de feriados no Brasil em 1924, pelo presidente da República Artur Bernardes.


Cento e vinte anos após a greve histórica de 1906, que garantiu jornada de trabalho de nove horas para a maioria dos trabalhadores e trabalhadoras, e 109 anos após a greve de 1917, que assegurou a jornada de oito horas, é difícil crer que a carga horária de oito horas continue em vigor até hoje e que a escala de 6x1 ainda seja imposta pelo patronato. Enquanto isso, quase diariamente, o Ministério do Trabalho e Emprego recebe denúncias sobre a situação de trabalhadores em situação análoga à escravidão. Em Bento Gonçalves, por exemplo, em fevereiro de 2023, fiscais flagraram 207 trabalhadores em situação de escravidão em várias vinícolas do município.


Greve de 1906


Na primeira grande greve geral do Sul do Brasil, em 1906, houve um grande comício na Praça da Alfândega, no dia 23 de setembro, quando o jornalista Carlos Cavaco, que era um dos principais líderes do movimento, sugeriu a criação de uma Federação Operária, recebendo o apoio imediato de outra liderança dos trabalhadores, Francisco Xavier da Costa, gráfico e jornalista. O movimento operário começou com a paralisação dos trabalhadores marmoristas e se espalhou por todas as categorias. A paralisação se intensificou no período de 31 de setembro a 20 de outubro, e ficou conhecida como “greve dos 21 dias”. A greve foi impulsionada pelos anarquistas, que iniciaram uma paralisação no dia 26 de agosto na marmoraria de Jacob Aloys Friedrichs, reivindicando a jornada de oito horas.



O processo industrial no Brasil estava iniciando, mas já provocava mudança na organização do trabalho, e não havia legislação que garantisse direitos trabalhistas no começo do século 20. O país havia abandonado há pouco a escravidão e o patronato custava a entender como se relacionar com trabalhadores livres. A jornada de trabalho podia chegar a 14 horas, inclusive para crianças. E os migrantes que chegavam ao Rio Grande do Sul, vindos da Europa, traziam ideias socialistas e anarquistas, confrontando o sistema de exploração encontrado no Brasil. 


Logo após a declaração de greve dos marmoristas, liderados por Henrique Faccini e André Arjonas, os trabalhadores fundaram o sindicato da categoria e convidaram os demais trabalhadores de Porto Alegre para se unirem ao movimento paredista. Durante todo o mês de setembro, a classe trabalhadora da cidade se manteve solidária aos marmoristas paralisados e, no dia 3 de outubro, diversas categorias se declararam em greve.


A reivindicação da jornada de oito horas não era uma novidade no movimento operário, os socialistas gaúchos já a exigiam desde 1897, quando a demanda apareceu no programa do Partido Socialista do Rio Grande do Sul. Ainda em 1906, entre os dias 15 e 22 de abril, foi realizado no Rio de Janeiro o Primeiro Congresso Operário Brasileiro, que colocou a luta pelas oito horas na pauta.


No entanto, o movimento foi aos poucos esvaziando diante de ameaças e do cansaço dos trabalhadores em greve. Eles não conseguiram as oito horas, mas conquistaram a redução da jornada de onze para nove horas. Um único empresário, Nicolau Rocco, dono da famosa confeitaria Rocco, concordou com a jornada de oito horas para seus funcionários e contribuiu com 100 mil réis para a caixa de auxílio aos grevistas.


Depois da greve geral, a ideia da Federação Operária, lançada naquele comício da Praça da Alfândega, prosperou e se concretizou. A Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS) seria a principal entidade a reunir os sindicatos gaúchos e liderar os grandes movimentos de classe trabalhadora no estado até a metade dos anos 1930.


Greve de 1917


A greve de 1917 foi a maior da história de Porto Alegre e também ocorreu em São Paulo e no Rio de Janeiro, mobilizando cerca de 70 mil trabalhadores e trabalhadoras. A paralisação foi deflagrada na Praça da Alfândega no dia 31 de julho, com um grande comício que reuniu cerca de cinco mil pessoas. Tudo começou com um grupo de trabalhadores e trabalhadoras que foi se deslocando pelas ruas, a partir do bairro Navegantes, convencendo os operários a fechar as fábricas, até que chegou na Praça da Alfândega e se reuniu com aqueles que já estavam lá, participando de um comício, quando a greve foi aprovada e se manteve por cinco dias. O movimento resultou numa série de conquistas, como aumento de salário, e algumas categorias conseguiram a jornada de oito horas de trabalho.


O mundo enfrentava a primeira grande guerra e vários produtos eram exportados para a frente de batalha, provocando alta no preço de mercadorias de primeira necessidade, esse foi um dos principais motivos para a greve. A pauta de reivindicação dos trabalhadores exigia diminuição nos preços dos gêneros; providências para evitar a retenção do açúcar nos portos; estabelecimento de um matadouro municipal para fornecer carne à população a preço razoável; criação de mercados livres nos bairros operários; obrigatoriedade da venda do pão a peso e fixação semanal do preço do quilo; aumento de 255 réis sobre os salários e generalização da jornada de oito horas para homens e de seis horas para mulheres e crianças.


Os problemas eram muitos. Nas fábricas, havia o emprego maciço de mão de obra infantil, mais barata que a adulta. Muitas crianças tinham dedos, mãos ou até o braço mutilados pelas máquinas e, assim como os demais trabalhadores, não tinham direito a tratamento médico ou seguro por acidentes de trabalho. 


Praça da Alfândega


A Praça da Alfândega é um local de referência para a classe trabalhadora desde o século 18. Naquela época, o lago Guaíba chegava até à escadaria que havia no local, onde foi construído um cais de pedra em 1783 para facilitar o embarque e desembarque de passageiros e de mercadorias. No local também havia um prédio, que foi a primeira alfândega da cidade. Na ampla praça se reuniam comerciantes e quitandeiros e, por isso, a área também era chamada de Praça da Quitanda. 


Em 1912, a gestão pública deu início à construção de um prédio maior para a Alfândega, que até então ficava no meio da praça, onde atualmente está o monumento em homenagem ao General Osório. Naquele mesmo ano, foi feito um aterro no lago Guaíba que permitiu a construção dos prédios da Delegacia Fiscal (atual Museu de Artes) e dos Correios e Telégrafos (atual Memorial do Rio Grande do Sul), bem como do Cais Mauá.


Desde 1955, sempre na segunda quinzena do mês de outubro, é realizada na Praça da Alfândega a tradicional Feira do Livro de Porto Alegre, organizada pela Câmara Rio-Grandense do Livro, atraindo milhares de visitantes. Até hoje, a praça é ponto de encontro de categorias em greve, como a greve dos bancários em 2015, e a greve dos vigilantes em 2019.


Para saber mais: Caminhos Operário no Instagram- @caminhos.operarios





A marcha do sem terra

30 anos do movimento de 17 de abril de 1997

 Trabalhadores rurais sem terra caminharam cerca de 1.000 quilômetros até Brasília, saindo de três estados, para chegar na capital federal no dia 17 de abril de 1997, exatamente um ano depois do assassinato de 21 trabalhadores no episódio que ficou conhecido como “massacre de Eldorado dos Carajás”, no interior do Pará. Além das vítimas fatais, 70 pessoas ficaram gravemente feridas. Em 2026, o massacre completa 30 anos sem ter levado ao banco dos réus os principais responsáveis pelo crime.


O massacre aconteceu quando cerca de três mil trabalhadores caminhavam na estrada em direção à Belém para exigir o assentamento em uma fazenda grilada de terras públicas e trabalho escravo, quando foram atacados pela Polícia Militar do Pará. Dois comandantes da PM foram condenados pelo crime e cumpriram a pena em celas especiais da Polícia Miitar em Brasília. O governador do estado, Almir Gabriel, e o secretário de segurança, Paulo Sette Câmara, nem foram mencionados durante o julgamento.


Na época, o presidente da República era Fernando Henrique Cardoso, segundo presidente eleito democraticamente após a ditadura, e o governador do Distrito Federal era Cristovam Buarque, então filiado ao PT. A ordem dos dois executivos foi para acolher os 1.300 manifestantes que chegaram em Brasília. Nesse tempo, eu era assessora de imprensa do deputado distrital Antônio José Ferreira, o Cafú, do PT, que tinha a reforma agrária como bandeira de luta.


Em nome do gabinete, acompanhei o grupo de trabalhadores rurais que se deslocou a partir do estado do Mato Grosso, entrando por Goiás até chegar em Brasília. O objetivo era oferecer o apoio do gabinete do deputado e documentar em fotos a chegada do grupo em Brasília, onde foi recebido por cem mil pessoas, depois de dois meses de caminhada. Acompanhei a marcha durante uma semana e as fotos publicadas aqui são um pouco do registro da marcha. Trinta anos depois, os avanços foram poucos e a prometida reforma agrária ainda é utopia.


domingo, 8 de março de 2026

A vergonha precisa mudar de lado


Livro de Gisèle Pelicot, vítima de estupro em série na França, chega ao Brasil


No ano de 2020, a aposentada francesa Gisèle Pelicot, então com 66 anos, soube pela polícia que era dopada e submetida a estupros em série há 10 anos por seu próprio marido e por homens que ele recrutava na internet. Ao longo de um processo de investigação que se estendeu por quatro anos, ela descobriu que passou por submissão química e foi seviciada por 80 homens. Cinquenta deles foram identificados e levados a julgamento no tribunal de Avignon, junto com Dominique Pelicot, seu marido por mais de 40 anos, com quem teve três filhos e sete netos. O processo perdeu o sigilo e foi tornado público a pedido da vítima, que desejava expor os criminosos “porque a vergonha precisa mudar de lado”, e essa declaração de Gisèle foi a virada de chave na história.


Tudo veio à tona quando Dominique foi flagrado em um supermercado fotografando com o celular por baixo da saia de duas mulheres. O segurança da loja o deteve e todos foram parar na delegacia do bairro, onde o celular foi apreendido. Dominique contou, aos prantos, para Gisèle o que havia acontecido e pediu perdão. A polícia descobriu no celular centenas de fotos e vídeos de Gisèle visivelmente dopada sendo estuprada por vários homens e a chamou para prestar depoimento, o marido também foi convocado. Dominique foi detido assim que se apresentou e Gisèle foi chamada para uma conversa em ambiente reservado onde as imagens foram mostradas.


Em depoimento à jornalista Judith Perignon, Gisèle conta os horrores e os bastidores do crime e do extenso processo judicial. O resultado é o livro “A vergonha precisa mudar de lado- um hino à vida”, 239 páginas, lançado na França no começo de fevereiro, e no Brasil no final do mesmo mês pela Companhia das Letras, com tradução de Júlia da Rosa Simões. Gisèle também fala sobre sua infância no interior da França, a morte da mãe quando tinha nove anos, a troca do estudo por um emprego, como conheceu o marido, que foi o seu primeiro namorado, as promoções no trabalho e a aposentadoria.


A aposentadoria e a disponibilidade de tempo livre foram entendidas pelo marido como oportunidade para seus crimes, já que Gisèle não precisava acordar cedo para trabalhar, o que não conseguiria fazer sob o efeito de medicação pesada. Afinal, Dominique era um homem que não conseguia se manter por muito tempo no mesmo emprego e quem de fato pagava as contas era ela.


O mundo de Gisèle desmoronou quando viu as imagens e foi informada pelo delegado sobre tudo o que Dominique havia dito em seu depoimento. Ele admitiu os crimes e explicou como os executava. Ao mesmo tempo, Gisèle entendeu porque sofria seguidos apagões, esquecendo o que havia feito no dia anterior, e as frequentes vaginites e dores musculares. Por 10 anos ela acreditou que estava sofrendo de demência ou que tinha um tumor no cérebro, sintomas que nunca mais sentiu após a prisão do marido, de quem se divorciou durante o processo judicial. Descobertas de outros crimes surgiram ao longo da investigação.


O que se percebe no decorrer da história contada por Gisèle é a crise familiar que atingiu a família, desestruturando a todos e lançando dúvidas que persistem até hoje. Além disso, ela descobriu que o marido estava terrivelmente endividado, e coube à ela, como esposa casada em comunhão de bens, arcar com o prejuízo. Ela perdeu a casa e precisou negociar prazos com os bancos. Soube também que Dominique já havia sido flagrado fotografando mulheres, mas pagou uma fiança e o caso não foi tornado público. E, aos poucos, ficou sabendo de uma série de pequenos incidentes que isolados não faziam sentido, mas juntos eram um forte indício do comportamento perverso do marido. Mas ela não deu valor a nenhum dos pequenos alertas. 


Gisèle agiu como a maioria das mulheres agem, acreditando cegamente em seu parceiro, não dando crédito aos comentários de amigos, desculpando deslizes por acreditar que certos comportamentos são naturais e permitidos no universo masculino, pagando todas as contas pensando que a próxima será paga pelo marido, mas esse dia nunca chega, e ainda se submetendo a certos caprichos em nome de uma prova de amor. Mas ela só pode enxergar esses sinais com auxílio de psicólogos e psiquiatras no período de quatro anos da montagem do processo judicial que condenou Dominique e 50 homens sentados juntos no banco dos réus. 


No começo do processo, Gisèle queria sigilo total e que o julgamento fosse a portas fechadas. Afinal, ela foi submetida a um crime hediondo, fotos e vídeos dela sendo seviciada seriam exibidos no tribunal, ela era milagrosamente uma sobrevivente, e não queria passar por uma exposição pública. No entanto, às vésperas do julgamento, lendo as notícias na mídia, recebendo informações de seus advogados sobre o cenário do tribunal e como deveria ser a estratégia dos advogados de defesa dos 50 estupradores recrutados por Dominique, ela decidiu que o julgamento seria público porque não era ela que deveria se envergonhar e sim os criminosos, e que a imprensa e a sociedade deveriam conhecê-los e escrever sobre eles, não sobre ela. 


E aqui foi a grande guinada do processo judicial. Os criminosos foram expostos e ficaram intimidados com isso. A imprensa queria saber quem eram eles, se tinham esposa, filhos, onde trabalhavam, o que faziam nas horas vagas, que lugares frequentavam. E um número cada vez maior de mulheres surgia todos os dias no auditório do tribunal e também na calçada para abraçar Gisèle e dizer palavras de conforto. Ela também recebeu centenas de cartas que narravam tragédias íntimas, onde as mulheres lhe diziam que iriam procurar a justiça para denunciar. Essa foi a grande vitória de Gisèle, como ela mesma diz no livro, ajudar outras mulheres a sair de relacionamentos perigosos. 


A dramática experiência de Gisèle comprova que é o criminoso quem deve ser exposto e não a vítima. A mídia ainda insiste em falar sobre a vítima e dá poucas linhas para o criminoso. As fotos são sempre da vítima e da cena do crime. As fotos devem ser do criminoso, tratado como suspeito enquanto aguarda julgamento, ou tratado como homicida se tiver admitido a culpa no ato da prisão. A imprensa precisa criar protocolos para esse tema tão sensível, da mesma forma que acontece na divulgação de casos de suicídio, com cartilha de orientação preparada pela ONU- Organização das Nações Unidas e referendada pelo Ministério da Saúde do Brasil, que inclusive oferece oficinas de capacitação para jornalistas quando o assunto é suicídio. Violência contra a mulher é crime e deve receber um olhar especial de todos nós.

 

Feminicídio


Campanha vai mostrar o  agressor 

Deputada Maria do Rosário apresenta relatório após o carnaval

Márcia Turcato

O governo federal relançou em fevereiro o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio. É um “relançamento” porque o pacto nasceu em 2023 e não colheu resultados. A nova estratégia de comunicação da campanha muda a linguagem ao colocar o foco não mais na vítima, a mulher, mas no agressor, o homem. Desde que o crime de feminicídio foi definido há 10 anos, as campanhas de publicidade exibidas nas mídias mostravam a imagem de mulheres agredidas, vulneráveis. TV e outdoor, até então, não mostravam imagens de homens recriminados ou presos. 

A mudança não é apenas estética, é de conceito. A imagem de mulheres em situação de vulnerabilidade, a maioria delas com um olho roxo, parece estimular e banalizar a violência. É como se colocasse em primeiro plano a opção pelo espancamento. “Ao retirar o foco da vítima, a campanha apela à sociedade que assuma um papel ativo na prevenção e na denúncia de violências contra as mulheres”, explica José Augusto Nigro, vice-presidente da agência Calia, que produziu a campanha.

O filme, que será veiculado após o carnaval, mostra o homem agressor sendo criticado nos locais que frequenta. O objetivo é interromper a rotina de violência que milhares de mulheres são submetidas não somente dentro de suas casas mas também em locais públicos. A produção é da agência Calia, que atende a Secretaria de Comunicação do governo federal.


Veja o vídeo da campanha aqui: 


https://nossomeio.com.br/secom-lanca-pacto-nacional-brasil-contra-o-feminicidio-e-apresenta-campanha-de-mobilizacao-nacional/#:~:text=SECOM%20lan%C3%A7a%20Pacto%20Nacional%20Brasil,mobiliza%C3%A7%C3%A3o%20nacional%20%2D%20Portal%20Nosso%20Meio


                “Papai ama vocês”. Essa foi a declaração do pai assassino

                 dos filhos de 12 e 8 anos, publicada numa rede social, pouco antes de matar as crianças e cometer o suicídio. Aconteceu no interior de Goiás na madrugada do dia 12 de fevereiro. O assassino deixou uma carta responsabilizando a ex-esposa pela motivação do crime brutal. O ato mostra o nível de crueldade cometido pelo criminoso, que tirou a vida dos próprios filhos e deixou a ex-companheira num luto sem fim. Gravíssima também é a reação da sociedade local que adotou a versão do assassino e impediu que a mãe enlutada participasse do velório de seus filhos. O ato mostra o tanto que a sociedade aprova o machismo e compactua com o crime.

Situação no RS e Brasil

No primeiro semestre de 2025, no Rio Grande do Sul, uma em cada cinco prisões foi decretada por violência doméstica. O número de prisões por esse tipo de crime no RS subiu 99% em oito anos, passando de 1.341 no primeiro semestre de 2017 para 2.677 no mesmo período de 2025. Os números são da Coordenadoria Estadual das Mulheres em Situação de Violência Doméstica Contra a Mulher (Cevid) do TJ-RS.


De acordo com relatório apresentado pela deputada Maria do Rosário (PT-RS), relatora da Comissão Externa da câmara Federal sobre os Feminicídios ocorridos no Estado do Rio Grande do Sul, de 2020 ao primeiro semestre de 2025, 660 crianças e adolescentes ficaram órfãs de mães, que foram vítimas de feminicídio, na maioria dos casos praticado pelo companheiro ou ex-companheiro.


No relatório, a deputada cita 95 propostas para viabilizar o compromisso dos governos federal e estadual na redução das mortes de mulheres. O relatório da Comissão Externa deve ser apresentado e votado na Câmara dos Deputados, em Brasília, dia 24 de fevereiro. 


A deputada diz que não há política profunda e articulada no Rio Grande do Sul e no Brasil para interromper as mortes por feminicídio. Maria do Rosário anunciou que as deputadas federais irão apresentar um projeto de lei para ampliar o Fundo Nacional de Segurança Pública para combate ao feminicídio nos estados, mas enfatizou que os governos municipais, estaduais e federal precisam assumir compromisso com a causa. 


No Brasil, os casos de feminicídio também cresceram.  O país atingiu o número recorde de 1.518 vítimas de feminicídios em 2025, ano em que a sanção da Lei do Feminicídio completou dez anos. No ano anterior, 2024, o país também já havia atingido recorde, com 1.458 mulheres assassinadas.



terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

 Caminhos da Ditadura em Porto Alegre faz imersão na Argentina

Trajeto histórico completa 10 anos e cruza fronteira



A iniciativa Caminhos da Ditadura em Porto Alegre completa 10 anos. O projeto começou a ser construído em 2016 por estudantes do curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em janeiro de 2026, o Caminhos cruzou a fronteira e foi até Buenos Aires, capital da Argentina, dando mais contexto aos relatos de extermínio que uniu ditaduras do Cone Sul sob as asas da Operação Condor, coordenada pelos Estados Unidos, com o objetivo de eliminar adversários políticos transfronteiriços. 


A professora de História Anita Natividade Carneiro, 30 anos, que criou o Caminhos em 2016, está à frente do projeto que levou um grupo de 28 pessoas à Argentina, em parceria com a arquiteta Cecília Giovenardi Esteve, 38 anos, que também é guia de turismo e integra o grupo de mediadoras do Caminhos. Juntas elas construíram um intenso roteiro de visitas a centros de memória e encontros com sobreviventes de campos de extermínio, ativistas, pessoas que foram sequestradas quando crianças e outras que nasceram no cárcere.


O grupo conheceu testemunhos potentes que expõem os bárbaros métodos de tortura e extermínio praticados na Argentina durante a ditadura mais cruel vivida pelo país, de 24 de março de 1976 a 10 de dezembro de 1983. Foram 2.818 dias de crimes hediondos cometidos pelo Estado, que implantou mais de 800 centros de tortura e extermínio, sequestrou e desapareceu com 30.000 pessoas e se apropriou de 500 bebês nascidos na prisão ou que foram sequestrados. Até o momento, apenas 140 pessoas, nascidas no cárcere, recuperam sua verdadeira identidade.


Para a construção do roteiro em Buenos Aires, Cecília se valeu da experiência que tem para organizar viagens temáticas, em especial àquelas que costuma fazer à Argentina com grupos da Arquitetura desde 2016. “Desta vez focamos na simbologia do espaço construído relacionado à ditadura”, explica Cecília. Ela diz também que “nas nossas mediações em Porto Alegre é comum surgirem questões relacionadas à ditadura no Cone Sul, então percebemos que uma viagem de imersão qualificaria ainda mais o nosso grupo”.

Em Porto Alegre

No mapa virtual do Caminhos da Ditadura em Porto Alegre (https://www.ufrgs.br/caminhosdaditaduraemportoalegre/ ) constam os 39 locais de violação dos direitos humanos identificados pela Comissão Nacional da Verdade em 2014 e vários locais de referência da militância política e do movimento estudantil. Atualmente, são mais de 200 pontos mapeados. Atualmente, são dois trajetos presenciais que percorrem referências histórias, um no bairro Bom Fim e outro na Praça da Matriz,  numa caminhada de aproximadamente duas horas, parando em diversos locais para ouvir as informações das e dos mediadores e também conversar com os participantes, reunidos em grupos de 50 pessoas, no máximo.

De acordo com Anita, que é doutoranda da UFRGS em Ensino da História, “após essa imersão nos locais de memória na Argentina, percebemos que o Brasil tem movimentos muito importantes no caminho da preservação dos lugares de memória, mas são insuficientes. Aliás, nunca será suficiente o número de memoriais e monumentos que vierem a ser erguidos. Mas avançamos muito no processo da memorialização, principalmente em relação aos locais onde ocorreram violações dos direitos humanos durante a ditadura no Brasil”.

Ela destaca também que “as pessoas que nos receberam nos locais de memória em Buenos Aires deixaram claro que o governo do presidente Javier Milei não dá o suporte necessário para a manutenção desses locais. Na Argentina, tal qual no Brasil, esses memoriais sofrem com a falta de financiamento, que não é necessariamente só público, vimos que moradores de um bairro se mobilizaram para preservar um centro de memória, que é o ex-centro clandestino de detenção da rua Virrey Cevallos, 630”.

A doutoranda em História está ciente que “ainda falta uma política de memória mais contundente, mais forte, pelo Estado, no Rio Grande do Sul e no Brasil, para que os espaços de memória se efetivem”. Anita destaca também a existência de muitos monumentos em homenagem a ditadores e colaboradores do terrorismo de Estado no Brasil, inclusive um condomínio em Porto Alegre com o nome ‘31 de março’. É importante realizar campanhas de conscientização sobre esses lugares. A sociedade civil, junto com o Estado, deve pensar em alternativas para esses espaços. A ditadura é um tema de disputa de memória”. 

Clube Atlético e Universidade das Madres

O minucioso roteiro da viagem iniciou com uma visita ao local onde funcionou o Clube Atlético, que serviu como Centro Clandestino de Detenção, Tortura e Extermínio, de 1976 a 1983. Cerca de 1.500 pessoas foram presas no local, “que era um verdadeiro campo de concentração”, afirmou o sobrevivente Daniel Mercogliano, 75 anos, sequestrado em casa no dia 19 de abril de 1977. Ao dar seu testemunho, Daniel estava acompanhado de Sílvia Fontana, irmã de Liliana Fontana, sequestrada e desaparecida desde o dia 01 de julho de 1977.

De acordo com o testemunho de Daniel, “os centros de tortura faziam parte de um plano de extermínio do governo militar, era terrorismo de Estado”.  Daniel disse também que “a classe dominadora seguiu acumulando dinheiro e poder enquanto a classe operária era presa, torturada e assassinada. No centro de extermínio, a comida era suficiente apenas para que continuássemos vivos e a tortura prosseguisse no dia seguinte”. Pessoas de vários países também foram sequestradas e presas nesse centro de extermínio. Cerca de 500 foram identificadas.

O prédio do Clube Atlético foi demolido em 1988 para a construção de um viaduto. Graças a intervenção popular e ao trabalho de arqueólogos, estão sendo realizadas escavações no local e parte da história pode ser recuperada. Em 2022, a equipe de arqueólogos localizou vários documentos e objetos durante as escavações. Uma meia vermelha e uma camiseta foram identificadas por Sílvia Fontana, como peças de roupas que sua irmã vestia quando foi sequestrada. Liliana não foi localizada até o momento, seu nome permanece na lista de pessoas desaparecidas. Hoje teria 69 anos.

Liliana Fontana, a Lili, era militante sindical, estudante de cabeleireira e estava grávida de dois meses. Foi sequestrada da casa dos pais junto com o companheiro, Pedro Sandoval. Testemunhas disseram que os viram na prisão do Clube Atlético. Seu filho, Alejandro Pedro Sandoval, é o neto número 84, resgatado pelas Avós da Praça de Maio em 2006, ano em que recuperou sua identidade. Alejandro havia sido apropriado  pelo policial Víctor Enrique Rei, atualmente preso. O primeiro neto a ser identificado foi em 1978. Até o momento, 140 recuperaram a identidade. Estima-se que 300 crianças nasceram no cárcere. 


Caminhos da Ditadura em Porto Alegre também conheceu a Universidade Popular de Las Madres, um projeto consolidado em abril de 2000. A universidade, que agora não recebe auxílio financeiro do governo Milei, fica ao lado da Casa das Madres,  fundada por Hebe de Bonafini, já falecida, que teve dois dos seus três filhos sequestrados e desaparecidos. Com apoio de professores universitários e de intelectuais argentinos e estrangeiros, a universidade popular promove cursos de direitos humanos, festivais e cursos de profissionalização.


O pessoal da universidade,  a associação das mães e a das avós, além de populares, participam às quintas-feiras, sempre às 15h30, da marcha da Praça de Maio, em que reivindicam o paradeiro das pessoas sequestradas e agregam demandas sociais à agenda. O grupo de Porto Alegre se juntou à marcha de nº 2.494, realizada dia 29 de janeiro.


“O propósito da universidade é formar pessoas com conhecimento sobre direitos humanos e compromisso social”, explica Demétrio Iramain, 68 anos, professor de História e jornalista. Para ele , “a luta é contra o fascimo e a exploração. Não somos um grupo de vítimas, somos um coletivo político que leva adiante a luta de nossos filhos. O fascimo não contempla questões de gênero, feminismo e outros temas que marcam os avanços sociais”.  E completou, “a reivindicação não acaba quando a demanda é atendida, ela é ampliada”. Durante a conversa com o grupo do Caminhos, Demétrio revelou que tem grande admiração por Pedro Stédile, liderança do MST- Movimento Sem Terra, que conheceu em Porto Alegre, no 1º Fórum Social Mundial- que agora completou 25 anos. 


Para que o grupo do Caminhos pudesse ter encontros com ativistas de direitos humanos, Cecília fez contatos com várias organizações utilizando os canais dos sites das entidades. “Nos contatos por e-mail eu escrevi sobre a história do Caminhos da Ditadura em Porto Alegre e solicitei agenda. As respostas foram muito positivas, as organizações chamaram sobreviventes da ditadura e netos resgatados para conversar conosco, porque a intenção, além da visita, é compor uma rede de ativistas, essa é uma forma muito interessante de fazer capacitação e ampliar nossa consciência política”, explica Cecília. 


Memória e testemunho


O prédio de três andares onde funcionou o centro clandestino de detenção da rua Virrey Cevallos, 630, foi declarado de utilidade pública em 2004. O local foi transformado em Centro de Memória e Promoção dos Direitos Humanos e aberto para visitação em 2009. Neste centro, o grupo do Caminhos encontrou Daniel Santucho Navajas, 49 anos, conhecido como “Neto 133”. Daniel deu um testemunho potente sobre a recuperação de sua identidade, que aconteceu somente em 2023.


Ele nasceu na prisão clandestina conhecida como Pozo de Banfield no dia 10 de janeiro de 1977, um setor do Exército argentino. Mais de 300 pessoas ficaram presas nesse local, incluindo quatro mulheres grávidas. Daniel é filho de Cristina Navajas, professora, e Júlio Santucho, também professor e ex-seminarista. Quando foi sequestrado, o casal tinha três filhos e Cristina estava grávida de dois meses. Os pais de Daniel eram militantes do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). Cristina permanece desaparecida. Júlio sobreviveu. Daniel Santucho Navajas é ativista de direitos humanos e protagonista do documentário Identidade Roubada, de 2024, e autor do livro Nieto 133- Mi Camino Hacia la Verdad, da editora Planeta.

A suposta irmã mais velha de Daniel foi quem o alertou de que não era filho biológico dos pais que acreditava ter, dúvidas que ele tinha desde os cinco anos de idade, sem nem saber explicar a razão. Em duas oportunidades, Daniel enfrentou o apropriador para saber a verdade, mas o homem, um ex-policial, sempre sustentou ser seu pai biológico. Ao procurar as Avós da Praça de Maio, o neto nº 133 pôde fazer um exame de DNA que confirmou a sua verdadeira identidade.  

Segundo o Ministério da Justiça e Direitos Humanos da Argentina, há cerca de trezentas pessoas com aproximadamente 45 anos, nascidas entre 1975 e 1983, que seguem desaparecidas. As Avós da Praça de Maio calculam que 500 bebês de presos políticos da ditadura argentina foram sequestrados e entregues para famílias de militares, abandonados em instituições de acolhimento ou vendidos. 


O gene das avós


A avó de Daniel, o neto nº 133, Nélida Navajas, morreu em 2012 sem o conhecer. Nélida é uma das fundadoras das Avós da Praça de Maio e contou com a ajuda do neto Miguel, irmão mais velho de Daniel, para liderar as buscas que duraram 46 anos. Em 1983, Nélida e Estela Carlotto, agora com 95 anos, viajaram aos Estados Unidos para conhecer a geneticista Mary Claire King e pedir um novo tipo de exame de DNA, que permitisse a identificação de uma pessoa não só pelos genes de mãe ou pai, mas também pelos genes das avós.


Em 1984, a premiada geneticista Mary-Claire embarcou para a Argentina com a questão resolvida. Ela conseguiu realizar o sequenciamento genético mitocondrial das avós para comparar com os genes de crianças que haviam sido apropriadas e determinar a ligação biológica entre elas. O procedimento recebeu o nome de  “índice de abuelidad”, o índice das avós. É importante destacar que em 1998, o ditador general Videla foi condenado, entre outros crimes graves, por ter colocado em prática o Plano Sistemático de Apropriação de Bebês. As primeiras condenações de Videla ocorreram em 1985, apenas dois anos após o fim da ditadura e o triunfo da democracia com Raúl Alfonsín.


ESMA, uma escola de tortura

O Sítio de Memória ESMA, inaugurado em 2015, foi declarado como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO- Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura em 2023. No local funcionou um centro clandestino de detenção, tortura e Eextermínio da Escola de Mecânica da Armada (ESMA). No edifício principal, que agora é museu, existiu o Cassino dos Oficiais. O museu é um dos 35 prédios erguidos em um terreno de 17 hectares onde há diversas instituições de memória e verdade distribuídas em 17 ruas internas.

Nesse local, o grupo de Porto Alegre foi recebido pelo mediador Guilhermo Amarilla Molfino, 48 anos. Ele é filho de um casal sequestrado pela ditadura e  nasceu na prisão. Guilhermo recuperou sua identidade em 2009 e tem três irmãos. Cinco mil sequestrados passaram pela ESMA e a história cruel do centro de torura e extermínio pode ser contada graças ao testemunho de poucos sobreviventes e de Andrea Fricmar.

Quando tinha onze anos, Andrea viu pela janela uma pessoa encapuzada e algemada sendo levada pelo pátio da ESMA, enquanto brincava com a filha de um comandante da escola militar.  Outro testemunho importante é o do gráfico Victor Basterra, que foi forçado a trabalhar como fotógrafo na ESMA e conseguiu esconder centenas de negativos de filmes que depois serviram de provas contra os torturadores. O mediador Guillermo explica que 85% dos presos tinham idade entre 16 e 35 anos. “Pessoas pobres e jovens eram presas pelo terrorismo de Estado, era um Estado de Terror”, salienta. Graças aos testemunhos, sabe-se que nasceram 37 crianças na ESMA, 14 delas recuperaram a identidade.

Os chamados “vôos da morte” levavam pessoas presas na ESMA para serem jogadas vivas no mar ou no rio da Prata. Pouco antes de entrarem no avião, as vítimas eram drogadas com um anestésico, o Pentotal, apelidado de PentaNaval pelos torturadores. Setenta corpos foram achados na praia. Depois disso, os genocidas colocaram pesos nos sequestrados para os corpos afundarem. 


Casa da Identidade


A Casa da Identidade é um espaço de memória gerido pela Associação das Avós da Praça de Maio e fica no mesmo prédio da Mostra da Linha Fundadora das Madres da Praça de Maio, onde há uma exposição permanente.  A Casa da Identidade tem o propósito de dar visibilidade à história de apropriação sistemática de crianças e recém-nascidos durante a ditadura argentina. A Casa guarda arquivos documentais, fotográficos e bibliográficos da organização, além de promover atividades educativas  e culturais.


Na Casa, o grupo do Caminhos foi recebido por Juan Pablo Moyano, 51 anos. Ele foi sequestrado em 1978, aos 18 meses de idade, e entregue a uma mulher que já estava com uma menina apropriada. Sua avó conseguiu localizá-lo por meio de uma foto, tirada quando ele era bebê, que foi distribuída pela Justiça por toda a Argentina, Juan Pablo já estava com sete anos, seus pais permanecem desaparecidos. 


“As mães que perderam seus filhos se transformaram em avós que procuram seus netos e netas e a luta prossegue”. Havia um plano estratégico para o roubo e o comércio de bebês”, diz Juan Pablo.


Em 2012, os militares foram condenados, entre eles o general Jorge Rafael Videla. Antes disso, porém, deputados da extrema direita tentaram impedir a prisão de subalternos criando a “lei da obediência devida e ponto final”, que acabou revogada. A Lei 23.492 foi promulgada em 1986, durante a presidência de Raúl Alfonsín, estabelecendo a paralisação dos processos judiciais contra os autores das detenções ilegais, torturas e assassinatos que ocorreram na ditadura militar.


A lei, junto com a sua complementar, a de Obediência Devida, foi considerada nula pelo Congresso Nacional em 2003, e finalmente declarada nula pela Corte Suprema de Justiça, por ser inconstitucional, em 14 de Junho de 2005, possibilitando que fossem reabertos os casos relacionados aos crimes contra a humanidade. O primeiro dos casos, responsabilizando Miguel Etchecolatz, ex- vice-comandante da Polícia Provincial de Buenos Aires, encerrou em setembro de 2006, estabelecendo jurisprudência ao reconhecer que o terrorismo de Estado durante a ditadura foi uma forma de genocídio.

Após a imersão no contexto da ditadura na Argentina, Anita revela que “é nossa intenção levar o Caminhos para outros estados do Brasil e outros países da América do Sul, expandir um pouco, porque vimos que as pessoas têm interesse em fazer uma viagem com esse foco. Muitas delas trabalham com este tema no Rio Grande do Sul, a maioria que fez a viagem para Buenos Aires é da área da História”.

Colocar comentário da Ciça sobre o roteiro.

Uma das mediadoras do Caminhos da Ditadura em Porto Alegre, Letícia Heinzelmann, 42 anos, jornalista, que participou da viagem para Argentina, avalia a experiência como “fundamental para conhecer os horrores da ditadura em nosso continente. Muitas iniciativas que vimos, de resgate da memória, são pertinentes para o Brasil”. E completa: “memória sempre, para o Nunca Mais!” Se houver outra viagem de imersão, Letícia pretende participar. 

O roteiro do grupo de Porto Alegre encerrou com uma visita ao Parque de La Memoria, criado em 1998, na orla do rio da Prata. No local há longas paredes com os nomes das 30 mil pessoas desaparecidas na Argentina durante a ditadura, além de instalações que simbolizam os horrores que aconteceram no país. O ambiente remete a um estágio de reflexão profunda e é uma visita necessária para os defensores da democracia e, principalmente, para quem desconhece os crimes bárbaros que são praticados em um regime ditatorial, onde a justiça é suprimida e os direitos são banidos.