Primeiro de Maio na Praça da Alfândega desde 1892
No local aconteceu a primeira manifestação pública no Brasil pelo 1º de Maio. Sindicalistas iniciam campanha pela construção de um monumento no local
A Praça da Alfândega conta a história da cidade e do movimento operário gaúcho. A primeira manifestação em espaço aberto pelo 1º de Maio aconteceu na praça em 1892. E a primeira greve de trabalhadores e trabalhadoras do Rio Grande do Sul, em 1906, teve a praça como local de concentração. A greve, que em 2026 completa 120 anos, mobilizou mais de cinco mil trabalhadores e parou a cidade. E foi na praça, naquele ano, que nasceu a Federação Operária do Rio Grande do Sul, uma ancestral das atuais centrais sindicais.
A proposta de erguer um monumento à classe trabalhadora na praça é uma iniciativa de um grupo de técnicos e técnicas administrativos da Ufrgs, da Ufcspa e do IFRS, que fazem parte do sindicato da categoria, a Assufrgs, e criaram uma Comissão de Memória. “Dentro da Comissão surgiu a ideia de propor para outras entidades a criação de um monumento para o 1º de Maio. Isso se dá diante da falta de referências à memória da classe trabalhadora, ao movimento sindical e ao movimento operário em Porto Alegre”, explica Frederico Duarte Bartz, filiado à Assufrgs, mestre e doutor em História e idealizador do curso de extensão Caminhos Operários em Porto Alegre, na UFRGS.
Para viabilizar o projeto, a Comissão da Memória do sindicato lança uma campanha no dia primeiro de maio voltada para os sindicatos, organizações culturais e demais grupos que tenham vínculo com a classe trabalhadora, para impulsionar um financiamento coletivo para a construção da obra. Ao mesmo tempo, o grupo fará uma mobilização junto aos deputados e vereadores para que seja aprovada a colocação do monumento na Praça da Alfândega.
O local é estratégico, foi da praça que saiu a primeira caminhada de Primeiro de Maio realizada no Brasil, em 1892, seis anos após o assassinato de trabalhadores em Chicago, EUA, em 1886, que reivindicavam a redução da jornada de 14 horas para oito horas. A data do evento em Chicago inspirou a criação do dia do trabalhador e da trabalhadora em primeiro de maio. Antes da manifestação em Porto Alegre, houve apenas atos pelo Primeiro de Maio em teatros, em São Paulo e no Rio de Janeiro.
A partir da praça, os trabalhadores saíram em caminhada até à Floresta- primeiro bairro operário de Porto Alegre, e fizeram algumas paradas para debates, como no Salão Cosmopolita, na rua Dr. Flores, e no final da tarde encerraram a manifestação com um picnic na Chácara da Sociedade Beneficente Alemã, localizada nos altos da rua Ramiro Barcelos, no bairro Independência. O primeiro de maio seria incorporado ao calendário oficial de feriados no Brasil em 1924, pelo presidente da República Artur Bernardes.
Cento e vinte anos após a greve histórica de 1906, que garantiu jornada de trabalho de nove horas para a maioria dos trabalhadores e trabalhadoras, e 109 anos após a greve de 1917, que assegurou a jornada de oito horas, é difícil crer que a carga horária de oito horas continue em vigor até hoje e que a escala de 6x1 ainda seja imposta pelo patronato. Enquanto isso, quase diariamente, o Ministério do Trabalho e Emprego recebe denúncias sobre a situação de trabalhadores em situação análoga à escravidão. Em Bento Gonçalves, por exemplo, em fevereiro de 2023, fiscais flagraram 207 trabalhadores em situação de escravidão em várias vinícolas do município.
Greve de 1906
Na primeira grande greve geral do Sul do Brasil, em 1906, houve um grande comício na Praça da Alfândega, no dia 23 de setembro, quando o jornalista Carlos Cavaco, que era um dos principais líderes do movimento, sugeriu a criação de uma Federação Operária, recebendo o apoio imediato de outra liderança dos trabalhadores, Francisco Xavier da Costa, gráfico e jornalista. O movimento operário começou com a paralisação dos trabalhadores marmoristas e se espalhou por todas as categorias. A paralisação se intensificou no período de 31 de setembro a 20 de outubro, e ficou conhecida como “greve dos 21 dias”. A greve foi impulsionada pelos anarquistas, que iniciaram uma paralisação no dia 26 de agosto na marmoraria de Jacob Aloys Friedrichs, reivindicando a jornada de oito horas.
O processo industrial no Brasil estava iniciando, mas já provocava mudança na organização do trabalho, e não havia legislação que garantisse direitos trabalhistas no começo do século 20. O país havia abandonado há pouco a escravidão e o patronato custava a entender como se relacionar com trabalhadores livres. A jornada de trabalho podia chegar a 14 horas, inclusive para crianças. E os migrantes que chegavam ao Rio Grande do Sul, vindos da Europa, traziam ideias socialistas e anarquistas, confrontando o sistema de exploração encontrado no Brasil.
Logo após a declaração de greve dos marmoristas, liderados por Henrique Faccini e André Arjonas, os trabalhadores fundaram o sindicato da categoria e convidaram os demais trabalhadores de Porto Alegre para se unirem ao movimento paredista. Durante todo o mês de setembro, a classe trabalhadora da cidade se manteve solidária aos marmoristas paralisados e, no dia 3 de outubro, diversas categorias se declararam em greve.
A reivindicação da jornada de oito horas não era uma novidade no movimento operário, os socialistas gaúchos já a exigiam desde 1897, quando a demanda apareceu no programa do Partido Socialista do Rio Grande do Sul. Ainda em 1906, entre os dias 15 e 22 de abril, foi realizado no Rio de Janeiro o Primeiro Congresso Operário Brasileiro, que colocou a luta pelas oito horas na pauta.
No entanto, o movimento foi aos poucos esvaziando diante de ameaças e do cansaço dos trabalhadores em greve. Eles não conseguiram as oito horas, mas conquistaram a redução da jornada de onze para nove horas. Um único empresário, Nicolau Rocco, dono da famosa confeitaria Rocco, concordou com a jornada de oito horas para seus funcionários e contribuiu com 100 mil réis para a caixa de auxílio aos grevistas.
Depois da greve geral, a ideia da Federação Operária, lançada naquele comício da Praça da Alfândega, prosperou e se concretizou. A Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS) seria a principal entidade a reunir os sindicatos gaúchos e liderar os grandes movimentos de classe trabalhadora no estado até a metade dos anos 1930.
Greve de 1917
A greve de 1917 foi a maior da história de Porto Alegre e também ocorreu em São Paulo e no Rio de Janeiro, mobilizando cerca de 70 mil trabalhadores e trabalhadoras. A paralisação foi deflagrada na Praça da Alfândega no dia 31 de julho, com um grande comício que reuniu cerca de cinco mil pessoas. Tudo começou com um grupo de trabalhadores e trabalhadoras que foi se deslocando pelas ruas, a partir do bairro Navegantes, convencendo os operários a fechar as fábricas, até que chegou na Praça da Alfândega e se reuniu com aqueles que já estavam lá, participando de um comício, quando a greve foi aprovada e se manteve por cinco dias. O movimento resultou numa série de conquistas, como aumento de salário, e algumas categorias conseguiram a jornada de oito horas de trabalho.
O mundo enfrentava a primeira grande guerra e vários produtos eram exportados para a frente de batalha, provocando alta no preço de mercadorias de primeira necessidade, esse foi um dos principais motivos para a greve. A pauta de reivindicação dos trabalhadores exigia diminuição nos preços dos gêneros; providências para evitar a retenção do açúcar nos portos; estabelecimento de um matadouro municipal para fornecer carne à população a preço razoável; criação de mercados livres nos bairros operários; obrigatoriedade da venda do pão a peso e fixação semanal do preço do quilo; aumento de 255 réis sobre os salários e generalização da jornada de oito horas para homens e de seis horas para mulheres e crianças.
Os problemas eram muitos. Nas fábricas, havia o emprego maciço de mão de obra infantil, mais barata que a adulta. Muitas crianças tinham dedos, mãos ou até o braço mutilados pelas máquinas e, assim como os demais trabalhadores, não tinham direito a tratamento médico ou seguro por acidentes de trabalho.
Praça da Alfândega
A Praça da Alfândega é um local de referência para a classe trabalhadora desde o século 18. Naquela época, o lago Guaíba chegava até à escadaria que havia no local, onde foi construído um cais de pedra em 1783 para facilitar o embarque e desembarque de passageiros e de mercadorias. No local também havia um prédio, que foi a primeira alfândega da cidade. Na ampla praça se reuniam comerciantes e quitandeiros e, por isso, a área também era chamada de Praça da Quitanda.
Em 1912, a gestão pública deu início à construção de um prédio maior para a Alfândega, que até então ficava no meio da praça, onde atualmente está o monumento em homenagem ao General Osório. Naquele mesmo ano, foi feito um aterro no lago Guaíba que permitiu a construção dos prédios da Delegacia Fiscal (atual Museu de Artes) e dos Correios e Telégrafos (atual Memorial do Rio Grande do Sul), bem como do Cais Mauá.
Desde 1955, sempre na segunda quinzena do mês de outubro, é realizada na Praça da Alfândega a tradicional Feira do Livro de Porto Alegre, organizada pela Câmara Rio-Grandense do Livro, atraindo milhares de visitantes. Até hoje, a praça é ponto de encontro de categorias em greve, como a greve dos bancários em 2015, e a greve dos vigilantes em 2019.
Para saber mais: Caminhos Operário no Instagram- @caminhos.operarios