A vergonha precisa mudar de lado
Livro de Gisèle Pelicot, vítima de estupro em série na França, chega ao Brasil
No ano de 2020, a aposentada francesa Gisèle Pelicot, então com 66 anos, soube pela polícia que era dopada e submetida a estupros em série há 10 anos por seu próprio marido e por homens que ele recrutava na internet. Ao longo de um processo de investigação que se estendeu por quatro anos, ela descobriu que passou por submissão química e foi seviciada por 80 homens. Cinquenta deles foram identificados e levados a julgamento no tribunal de Avignon, junto com Dominique Pelicot, seu marido por mais de 40 anos, com quem teve três filhos e sete netos. O processo perdeu o sigilo e foi tornado público a pedido da vítima, que desejava expor os criminosos “porque a vergonha precisa mudar de lado”, e essa declaração de Gisèle foi a virada de chave na história.
Tudo veio à tona quando Dominique foi flagrado em um supermercado fotografando com o celular por baixo da saia de duas mulheres. O segurança da loja o deteve e todos foram parar na delegacia do bairro, onde o celular foi apreendido. Dominique contou, aos prantos, para Gisèle o que havia acontecido e pediu perdão. A polícia descobriu no celular centenas de fotos e vídeos de Gisèle visivelmente dopada sendo estuprada por vários homens e a chamou para prestar depoimento, o marido também foi convocado. Dominique foi detido assim que se apresentou e Gisèle foi chamada para uma conversa em ambiente reservado onde as imagens foram mostradas.
Em depoimento à jornalista Judith Perignon, Gisèle conta os horrores e os bastidores do crime e do extenso processo judicial. O resultado é o livro “A vergonha precisa mudar de lado- um hino à vida”, 239 páginas, lançado na França no começo de fevereiro, e no Brasil no final do mesmo mês pela Companhia das Letras, com tradução de Júlia da Rosa Simões. Gisèle também fala sobre sua infância no interior da França, a morte da mãe quando tinha nove anos, a troca do estudo por um emprego, como conheceu o marido, que foi o seu primeiro namorado, as promoções no trabalho e a aposentadoria.
A aposentadoria e a disponibilidade de tempo livre foram entendidas pelo marido como oportunidade para seus crimes, já que Gisèle não precisava acordar cedo para trabalhar, o que não conseguiria fazer sob o efeito de medicação pesada. Afinal, Dominique era um homem que não conseguia se manter por muito tempo no mesmo emprego e quem de fato pagava as contas era ela.
O mundo de Gisèle desmoronou quando viu as imagens e foi informada pelo delegado sobre tudo o que Dominique havia dito em seu depoimento. Ele admitiu os crimes e explicou como os executava. Ao mesmo tempo, Gisèle entendeu porque sofria seguidos apagões, esquecendo o que havia feito no dia anterior, e as frequentes vaginites e dores musculares. Por 10 anos ela acreditou que estava sofrendo de demência ou que tinha um tumor no cérebro, sintomas que nunca mais sentiu após a prisão do marido, de quem se divorciou durante o processo judicial. Descobertas de outros crimes surgiram ao longo da investigação.
O que se percebe no decorrer da história contada por Gisèle é a crise familiar que atingiu a família, desestruturando a todos e lançando dúvidas que persistem até hoje. Além disso, ela descobriu que o marido estava terrivelmente endividado, e coube à ela, como esposa casada em comunhão de bens, arcar com o prejuízo. Ela perdeu a casa e precisou negociar prazos com os bancos. Soube também que Dominique já havia sido flagrado fotografando mulheres, mas pagou uma fiança e o caso não foi tornado público. E, aos poucos, ficou sabendo de uma série de pequenos incidentes que isolados não faziam sentido, mas juntos eram um forte indício do comportamento perverso do marido. Mas ela não deu valor a nenhum dos pequenos alertas.
Gisèle agiu como a maioria das mulheres agem, acreditando cegamente em seu parceiro, não dando crédito aos comentários de amigos, desculpando deslizes por acreditar que certos comportamentos são naturais e permitidos no universo masculino, pagando todas as contas pensando que a próxima será paga pelo marido, mas esse dia nunca chega, e ainda se submetendo a certos caprichos em nome de uma prova de amor. Mas ela só pode enxergar esses sinais com auxílio de psicólogos e psiquiatras no período de quatro anos da montagem do processo judicial que condenou Dominique e 50 homens sentados juntos no banco dos réus.
No começo do processo, Gisèle queria sigilo total e que o julgamento fosse a portas fechadas. Afinal, ela foi submetida a um crime hediondo, fotos e vídeos dela sendo seviciada seriam exibidos no tribunal, ela era milagrosamente uma sobrevivente, e não queria passar por uma exposição pública. No entanto, às vésperas do julgamento, lendo as notícias na mídia, recebendo informações de seus advogados sobre o cenário do tribunal e como deveria ser a estratégia dos advogados de defesa dos 50 estupradores recrutados por Dominique, ela decidiu que o julgamento seria público porque não era ela que deveria se envergonhar e sim os criminosos, e que a imprensa e a sociedade deveriam conhecê-los e escrever sobre eles, não sobre ela.
E aqui foi a grande guinada do processo judicial. Os criminosos foram expostos e ficaram intimidados com isso. A imprensa queria saber quem eram eles, se tinham esposa, filhos, onde trabalhavam, o que faziam nas horas vagas, que lugares frequentavam. E um número cada vez maior de mulheres surgia todos os dias no auditório do tribunal e também na calçada para abraçar Gisèle e dizer palavras de conforto. Ela também recebeu centenas de cartas que narravam tragédias íntimas, onde as mulheres lhe diziam que iriam procurar a justiça para denunciar. Essa foi a grande vitória de Gisèle, como ela mesma diz no livro, ajudar outras mulheres a sair de relacionamentos perigosos.
A dramática experiência de Gisèle comprova que é o criminoso quem deve ser exposto e não a vítima. A mídia ainda insiste em falar sobre a vítima e dá poucas linhas para o criminoso. As fotos são sempre da vítima e da cena do crime. As fotos devem ser do criminoso, tratado como suspeito enquanto aguarda julgamento, ou tratado como homicida se tiver admitido a culpa no ato da prisão. A imprensa precisa criar protocolos para esse tema tão sensível, da mesma forma que acontece na divulgação de casos de suicídio, com cartilha de orientação preparada pela ONU- Organização das Nações Unidas e referendada pelo Ministério da Saúde do Brasil, que inclusive oferece oficinas de capacitação para jornalistas quando o assunto é suicídio. Violência contra a mulher é crime e deve receber um olhar especial de todos nós.
Feminicídio
Campanha vai mostrar o agressor
Deputada Maria do Rosário apresenta relatório após o carnaval
Márcia Turcato
O governo federal relançou em fevereiro o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio. É um “relançamento” porque o pacto nasceu em 2023 e não colheu resultados. A nova estratégia de comunicação da campanha muda a linguagem ao colocar o foco não mais na vítima, a mulher, mas no agressor, o homem. Desde que o crime de feminicídio foi definido há 10 anos, as campanhas de publicidade exibidas nas mídias mostravam a imagem de mulheres agredidas, vulneráveis. TV e outdoor, até então, não mostravam imagens de homens recriminados ou presos.
A mudança não é apenas estética, é de conceito. A imagem de mulheres em situação de vulnerabilidade, a maioria delas com um olho roxo, parece estimular e banalizar a violência. É como se colocasse em primeiro plano a opção pelo espancamento. “Ao retirar o foco da vítima, a campanha apela à sociedade que assuma um papel ativo na prevenção e na denúncia de violências contra as mulheres”, explica José Augusto Nigro, vice-presidente da agência Calia, que produziu a campanha.
O filme, que será veiculado após o carnaval, mostra o homem agressor sendo criticado nos locais que frequenta. O objetivo é interromper a rotina de violência que milhares de mulheres são submetidas não somente dentro de suas casas mas também em locais públicos. A produção é da agência Calia, que atende a Secretaria de Comunicação do governo federal.
Veja o vídeo da campanha aqui:
“Papai ama vocês”. Essa foi a declaração do pai assassino
dos filhos de 12 e 8 anos, publicada numa rede social, pouco antes de matar as crianças e cometer o suicídio. Aconteceu no interior de Goiás na madrugada do dia 12 de fevereiro. O assassino deixou uma carta responsabilizando a ex-esposa pela motivação do crime brutal. O ato mostra o nível de crueldade cometido pelo criminoso, que tirou a vida dos próprios filhos e deixou a ex-companheira num luto sem fim. Gravíssima também é a reação da sociedade local que adotou a versão do assassino e impediu que a mãe enlutada participasse do velório de seus filhos. O ato mostra o tanto que a sociedade aprova o machismo e compactua com o crime.
Situação no RS e Brasil
No primeiro semestre de 2025, no Rio Grande do Sul, uma em cada cinco prisões foi decretada por violência doméstica. O número de prisões por esse tipo de crime no RS subiu 99% em oito anos, passando de 1.341 no primeiro semestre de 2017 para 2.677 no mesmo período de 2025. Os números são da Coordenadoria Estadual das Mulheres em Situação de Violência Doméstica Contra a Mulher (Cevid) do TJ-RS.
De acordo com relatório apresentado pela deputada Maria do Rosário (PT-RS), relatora da Comissão Externa da câmara Federal sobre os Feminicídios ocorridos no Estado do Rio Grande do Sul, de 2020 ao primeiro semestre de 2025, 660 crianças e adolescentes ficaram órfãs de mães, que foram vítimas de feminicídio, na maioria dos casos praticado pelo companheiro ou ex-companheiro.
No relatório, a deputada cita 95 propostas para viabilizar o compromisso dos governos federal e estadual na redução das mortes de mulheres. O relatório da Comissão Externa deve ser apresentado e votado na Câmara dos Deputados, em Brasília, dia 24 de fevereiro.
A deputada diz que não há política profunda e articulada no Rio Grande do Sul e no Brasil para interromper as mortes por feminicídio. Maria do Rosário anunciou que as deputadas federais irão apresentar um projeto de lei para ampliar o Fundo Nacional de Segurança Pública para combate ao feminicídio nos estados, mas enfatizou que os governos municipais, estaduais e federal precisam assumir compromisso com a causa.
No Brasil, os casos de feminicídio também cresceram. O país atingiu o número recorde de 1.518 vítimas de feminicídios em 2025, ano em que a sanção da Lei do Feminicídio completou dez anos. No ano anterior, 2024, o país também já havia atingido recorde, com 1.458 mulheres assassinadas.