Propaganda pró Trump nas redes sociais
Donald Trump, presidente dos Estado Unidos (EUA), disse que acabou com oito guerras no mundo. Quais seriam? Falou também que a Groenlândia deve ser devolvida, como se alguma vez tivesse pertencido aos EUA. A ilha é território autônomo da Dinamarca desde 1814, mas os povos nórdicos estão lá desde o século 10.
As declarações de Trump imediatamente ganharam as redes sociais e foram compartilhadas por perfis de destaque, como o do bilionário Elon Musk, ex-funcionário da Casa Branca, e a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, por exemplo. Eu, que mesmo sem seguir esses perfis na rede X (ex-Twitter), recebi dezenas de posts com as declarações falsas de Trump. Quando interagi com o perfil da Embaixada, recebi o mesmo post traduzido para o português.
“As tecnologias de informação e comunicação (TICs) trabalham com modelos matemáticos e geolocalização”, explica o professor do centro universitário Uniritter, Jean Paul Lopes, especializado em Formação Pedagógica e graduado em Desenvolvimento de Sistemas. É por isso que meu comentário, interagindo com a postagem da Embaixada dos Estados Unidos, foi matematicamente analisado e geograficamente identificado como um post veiculado desde o Brasil. A inteligência artificial está aí para processar informação em milésimos de tempo e direcionar conteúdo, não do nosso interesse, mas do interesse do negócio!
“O propósito das TICs tem muito mais a ver com o mercado do que com a veiculação da informação pura e simples. Os algoritmos são modelos matemáticos construídos para obter o melhor resultado. Há uma máxima nas TICs: quando o produto é de graça, tu és o produto, porque desenvolver dados é muito caro. Ninguém vai entregar nada de graça pra ti”, afirma o professor Lopes.
Se já é assim agora, imagine como será o cenário na eleição de 2026. O uso da IA está liberado. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve as mesmas recomendações fixadas na eleição de 2024 e divulgou uma minuta no dia 19 de janeiro deste ano. A revisão das regras sobre o uso de IA está a cargo do atual vice-presidente do TSE, ministro Nunes Marques (indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro), e que estará no comando do Tribunal durante as eleições de 2026. Haverá uma audiência pública sobre o tema nos dias 3 e 5 de fevereiro.
Em 2024, o TSE proibiu o uso de qualquer publicação manipulada (as chamadas deepfakes) e determinou que o conteúdo produzido com uso IA deveria ser identificado. Mas essa identificação passa despercebida pelo público. Conhecida como “marca dágua”, ela é uma informação que entra como dado, ou seja, só fica sabendo quem é programador digital.
Um ponto importante da minuta do TSE, no entanto, é a determinação de que um perfil pode ser removido pela Justiça Eleitoral quando for "comprovadamente falso, relacionado a pessoa que sequer existe fora do mundo virtual (perfil automatizado ou robô) ou cujas publicações estejam voltadas ao cometimento de crime".
A robotização foi extremamente utilizada nas eleições majoritárias de 2018, quando Bolsonaro foi eleito. Nessa época, o presidente do TSE era o ministro Luiz Fux, que criou um conselho dentro do tribunal para avaliar fake news. O uso de robôs só veio à tona graças a reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo e assinada pela jornalista Patrícia Campos Mello. O disparo em massa de mensagens instantâneas com o uso de robôs foi proibido pelo TSE em 2019.
Centro Integrado
Certamente você já ouviu falar em “cartilha gay”, ou em “mamadeira de p*”, ou ainda que a “vacina contra Covid implanta um chip chinês na pessoa”. Esses três temas têm em comum o fato de serem fake news, ou seja, são desinformação, e as três surgiram durante campanhas eleitorais.
Pois bem, a justiça eleitoral colocou foco nesse assunto. O então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes, inaugurou em março de 2024 o Centro Integrado de Enfrentamento à Desinformação e Defesa da Democracia (CIEDDE), que tem como objetivo coordenar ações junto aos três poderes, órgãos da República e instituições na promoção da educação em cidadania, dos valores democráticos e dos direitos digitais.
Na ocasião, Moraes disse que “a vontade do eleitorado vem sendo atacada por milícias digitais desde 2018, que, ao utilizar fake news e discursos de ódio, pretendem desvirtuar o mercado livre de ideias”. O ministro informou também que cabe ao Centro, entre outras atribuições, combater a desinformação eleitoral; as deep fakes e os discursos de ódio, discriminatórios e antidemocráticos na esfera eleitoral. A eleição de 2026 estará a cargo da ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha.
Novo sangue
Nossos dados são o novo sangue das pessoas e o novo combustível das empresas. Quem afirma é o médico Felix Rigoli, ex-gerente de Sistemas de Saúde da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), entidade da Organização Mundial da Saúde(OMS), no período de 2000 a 2015, em Washington e também em Brasília.
Felix Rigoli, que atualmente coordena o Observatório de Desenvolvimento, Desigualdades em Saúde e Inteligência Artificial (Odisseia), do Núcleo de Bioética e Diplomacia (NETHIS) da Fiocruz/Brasília, destaca os riscos de nossos dados pessoais ficarem expostos em redes sociais e ilustra com um caso ocorrido nos Estados Unidos, onde uma rede de lojas coletava os dados das mulheres e classificava aquelas que tinham perspectivas de engravidar com o objetivo de enviar propaganda de fraldas e mamadeiras.
Atualmente, essa mesma base de dados da loja está sendo usada pela polícia dos estados onde o aborto é criminalizado para classificar e ameaçar as mulheres que possam estar cogitando interromper a gravidez. “Os executivos das Bigs Techs têm comentado muito em reuniões fechadas como é fácil obter os dados das pessoas”, revela Rigoli. “Elas fornecem as informações voluntariamente ou em troca de nada, ou de quase nada, colocando na rede milhões de dados pessoais”.
O Facebook coleta 52.000 pontos de dados de cada indivíduo, todos colocados voluntariamente pelas pessoas na ansiedade de publicar a cada instante. O Instagram multiplica por dez essa exposição, mostrando lugares, acompanhantes, uso de produtos e outras coisas. “Infelizmente, não há uma norma que possa proteger as pessoas de suas próprias condutas. Por isso criar consciência é tão importante”, diz o especialista.
BOX
Dados vazados
É possível verificar se nossos dados foram vazados na internet. Alguns sites fazem esse trabalho, como o Have I Been Pwned, que busca por seu e-mail em bancos de dados de vazamentos, e o DataBreach.com, que vasculha a dark web para encontrar os dados. O Banco Central também oferece ferramentas para verificar movimentações bancárias e identificar possíveis fraudes.
Algumas opções de sites para verificar vazamentos:
Have I Been Pwned?
Digite seu e-mail ou número de telefone para saber se já ocorreu algum vazamento de dados.
DataBreach.com
O site vasculha a dark web e informa se seus dados (como e-mail, senha, nome etc) já foram encontrados em vazamentos.
Registrato do Banco Central
Para verificar movimentações bancárias e identificar possíveis fraudes, utilize o Registrado do Banco Central.
Kaspersky
O aplicativo Kaspersky também tem um verificador de dados vazados.
Pesquise seu e-mail no Google
Digite seu e-mail entre aspas no Google para ver se ele aparece em sites ou fóruns que não deveriam ter acesso aos seus dados.