Capivaras do Lago Paranoá não transmitem febre maculosa
Chegou ao fim a primeira fase do trabalho “Identificação e Monitoramento da População de Capivaras no Lago Paranoá”. O resultado parcial do estudo revelou que as capivaras do lago Paranoá não são portadoras do carrapato que hospeda a bactéria Rickettsia rickettsii, que transmite a febre maculosa. As análises sorológicas realizadas até o momento não identificaram evidências da bactéria.
O estudo foi realizado com recursos do Fundo Único do Meio Ambiente (Funam) e é resultado de parceria firmada em 2021 entre Secretaria de Meio Ambiente do Distrito Federal e a Universidade Católica de Brasília (UCB), sob a coordenação da bióloga Morgana Bruno. Em 2025, a iniciativa ganhou a participação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), quando o órgão fez uma série de observações, consolidadas no documento Recomendação Nº 7/2025, expedida pela 4ª Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e do Patrimônio Cultural (Prodema), que orienta a adoção de medidas para reduzir conflitos entre capivaras e a população.
O resultado parcial do estudo foi apresentado no auditório do MPDFT. Na abertura do evento, a promotora de justiça Luciana Bertini, da Prodema, destacou que os resultados contribuirão para orientar decisões sobre o manejo das capivaras e a convivência entre a fauna silvestre e a população. "Quando o Ministério Público fez a recomendação e mencionou a adoção de cerca-guia, por exemplo, o objetivo foi identificar pontos críticos para evitar atropelamentos, preservando a flora e a fauna”.
A coordenadora do projeto, Morgana Bruno, apresentou os resultados preliminares e salientou que a iniciativa busca compreender a dinâmica da espécie para subsidiar estratégias que conciliem a preservação ambiental e a convivência entre a fauna silvestre e a população. Morgana disse que o monitoramento registrou variações sazonais na população de capivaras.
Na orla do lago foram contabilizados 475 animais durante o período de seca, em agosto de 2025, e 317 no período chuvoso, em janeiro de 2026. Conforme a equipe de pesquisa, essa oscilação ocorre em razão do deslocamento natural dos grupos ao longo do ano.
O estudo entra agora em uma nova fase. Nessa segunda etapa será feita a identificação de corredores ecológicos, mapeamento de áreas com maior risco de atropelamentos, criação de protocolos para definir medidas de manejo, a implantação de corredores de fauna, cercas-guia, sinalização e ações de educação ambiental voltadas à prevenção de acidentes e à proteção da fauna silvestre.
Memória
O projeto se tornou necessário porque as capivaras passaram a conviver com os humanos e animais domésticos a partir de 2017, quando houve a desocupação da orla do lago. “Até 2017, os proprietários destes imóveis estendiam sua ocupação até a margem do lago, muitas vezes ignorando a área de preservação permanente constituída pelos 30 metros a partir do espelho d’água e cuja propriedade é do Governo do Distrito Federal”, explica a bióloga Morgana Bruno, doutora em Ecologia pela Universidade de Brasília.
A partir de uma sentença judicial, foi iniciada a desocupação da orla do lago e a nova situação trouxe desafios ao Poder Público. É necessário recompor a vegetação nativa, implantar unidades de conservação e gerir esses espaços públicos de acordo com a demanda social, construindo serviços ambientais e contribuindo para as metas de conservação ambiental do DF.
O objetivo do estudo é estimar, por meio de censos e avaliação da qualidade do habitat, a variação do número de capivaras e condições gerais de vida, para subsidiar políticas públicas e reduzir conflitos com a população humana. Para tanto, a pesquisa tem foco especial na divulgação de informações e resultados de campanhas de educação ambiental.