sábado, 24 de janeiro de 2026

 Propaganda pró Trump nas redes sociais


Donald Trump, presidente dos Estado Unidos (EUA), disse que acabou com oito guerras no mundo. Quais seriam? Falou também que a Groenlândia deve ser devolvida, como se alguma vez tivesse pertencido aos EUA. A ilha é território autônomo da Dinamarca desde 1814, mas os povos nórdicos estão lá desde o século 10.


As declarações de Trump imediatamente ganharam as redes sociais e foram compartilhadas por perfis de destaque, como o do bilionário Elon Musk, ex-funcionário da Casa Branca, e a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, por exemplo. Eu, que mesmo sem seguir esses perfis na rede X (ex-Twitter), recebi dezenas de posts com as declarações falsas de Trump. Quando interagi com o perfil da Embaixada, recebi o mesmo post traduzido para o português.


“As tecnologias de informação e comunicação (TICs) trabalham com modelos matemáticos e geolocalização”, explica o professor do centro universitário Uniritter, Jean Paul Lopes, especializado em Formação Pedagógica e graduado em Desenvolvimento de Sistemas. É por isso que meu comentário, interagindo com a postagem da Embaixada dos Estados Unidos, foi matematicamente analisado e geograficamente identificado como um post veiculado desde o Brasil. A inteligência artificial está aí para processar informação em milésimos de tempo e direcionar conteúdo, não do nosso interesse, mas do interesse do negócio! 


“O propósito das TICs tem muito mais a ver com o mercado do que com a veiculação da informação pura e simples. Os algoritmos são modelos matemáticos construídos para obter o melhor resultado. Há uma máxima nas TICs: quando o produto é de graça, tu és o produto, porque desenvolver dados é muito caro. Ninguém vai entregar nada de graça pra ti”, afirma o professor Lopes.


Se já é assim agora, imagine como será o cenário na eleição de 2026. O uso da IA está liberado. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve as mesmas recomendações fixadas na eleição de 2024 e divulgou uma minuta no dia 19 de janeiro deste ano. A revisão das regras sobre o uso de IA está a cargo do atual vice-presidente do TSE, ministro Nunes Marques (indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro), e que estará no comando do Tribunal durante as eleições de 2026. Haverá uma audiência pública sobre  o tema  nos dias 3 e 5 de fevereiro. 


Em 2024, o TSE proibiu o uso de qualquer publicação manipulada (as chamadas deepfakes) e determinou que o conteúdo produzido com uso IA deveria ser identificado. Mas essa identificação passa despercebida pelo público. Conhecida como “marca dágua”, ela é uma informação que entra como dado, ou seja, só fica sabendo quem é programador digital.

Um ponto importante da minuta do TSE, no entanto, é a determinação de que um perfil pode ser removido pela Justiça Eleitoral quando for "comprovadamente falso, relacionado a pessoa que sequer existe fora do mundo virtual (perfil automatizado ou robô) ou cujas publicações estejam voltadas ao cometimento de crime".

A robotização foi extremamente utilizada nas eleições majoritárias de 2018, quando Bolsonaro foi eleito. Nessa época, o presidente do TSE era o ministro Luiz Fux, que criou um conselho dentro do tribunal para avaliar fake news.  O uso de robôs só veio à tona graças a reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo e assinada pela jornalista Patrícia Campos Mello. O disparo em massa de mensagens instantâneas com o uso de robôs foi proibido pelo TSE em 2019. 

Centro Integrado


Certamente você já ouviu falar em “cartilha gay”, ou em “mamadeira de p*”, ou ainda que a “vacina contra Covid implanta um chip chinês na pessoa”. Esses três temas têm em comum o fato de serem fake news, ou seja, são desinformação, e as três surgiram durante campanhas eleitorais.


Pois bem, a justiça eleitoral colocou foco nesse assunto. O então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes, inaugurou em março de 2024 o Centro Integrado de Enfrentamento à Desinformação e Defesa da Democracia (CIEDDE), que tem como objetivo coordenar ações junto aos três poderes, órgãos da República e instituições na promoção da educação em cidadania, dos valores democráticos e dos direitos digitais.


Na ocasião, Moraes disse que “a vontade do eleitorado vem sendo atacada por milícias digitais desde 2018, que, ao utilizar fake news e discursos de ódio, pretendem desvirtuar o mercado livre de ideias”. O ministro informou também que cabe ao Centro, entre outras atribuições, combater a desinformação eleitoral; as deep fakes e os discursos de ódio, discriminatórios e antidemocráticos na esfera eleitoral. A eleição de 2026 estará a cargo da ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha.


Novo sangue


Nossos dados são o novo sangue das pessoas e o novo combustível das empresas. Quem afirma é o médico Felix Rigoli, ex-gerente de Sistemas de Saúde da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), entidade da Organização Mundial da Saúde(OMS), no período de 2000 a 2015, em Washington e também em Brasília.


Felix Rigoli, que atualmente coordena o Observatório de Desenvolvimento, Desigualdades em Saúde e Inteligência Artificial (Odisseia), do Núcleo de Bioética e Diplomacia (NETHIS) da Fiocruz/Brasília, destaca os riscos de nossos dados pessoais ficarem expostos em redes sociais e ilustra com um caso ocorrido nos Estados Unidos, onde uma rede de lojas coletava os dados das mulheres e classificava aquelas que tinham perspectivas de engravidar com o objetivo de enviar propaganda de fraldas e mamadeiras. 


Atualmente, essa mesma base de dados da loja está sendo usada pela polícia dos estados onde o aborto é criminalizado para classificar e ameaçar as mulheres que possam estar cogitando interromper a gravidez.  “Os executivos das Bigs Techs têm comentado muito em reuniões fechadas como é fácil obter os dados das pessoas”, revela Rigoli. “Elas fornecem as informações voluntariamente ou em troca de nada, ou de quase nada, colocando na rede milhões de dados pessoais”.


O Facebook coleta 52.000 pontos de dados de cada indivíduo, todos colocados voluntariamente pelas pessoas na ansiedade de publicar a cada instante. O Instagram multiplica por dez essa exposição, mostrando lugares, acompanhantes, uso de produtos e outras coisas. “Infelizmente, não há uma norma que possa proteger as pessoas de suas próprias condutas. Por isso criar consciência é tão importante”, diz o especialista.


BOX


Dados vazados


É possível verificar se nossos dados foram vazados na internet. Alguns sites fazem esse trabalho, como o Have I Been Pwned, que busca por seu e-mail em bancos de dados de vazamentos, e o DataBreach.com, que vasculha a dark web para encontrar os dados. O Banco Central também oferece ferramentas para verificar movimentações bancárias e identificar possíveis fraudes. 


Algumas opções de sites para verificar vazamentos:

Have I Been Pwned?

Digite seu e-mail ou número de telefone para saber se já ocorreu algum vazamento de dados. 

DataBreach.com

O site vasculha a dark web e informa se seus dados (como e-mail, senha, nome etc) já foram encontrados em vazamentos. 

Registrato do Banco Central

Para verificar movimentações bancárias e identificar possíveis fraudes, utilize o Registrado do Banco Central. 

Kaspersky

O aplicativo Kaspersky também tem um verificador de dados vazados.

Pesquise seu e-mail no Google

Digite seu e-mail entre aspas no Google para ver se ele aparece em sites ou fóruns que não deveriam ter acesso aos seus dados. 






domingo, 4 de janeiro de 2026

 Bugio é patrimônio cultural imaterial


Bugio é um macaco, é ritmo musical, é dança e agora é patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul. Nesta terça-feira (12) o Bugio assumiu oficialmente esse patamar em cerimônia realizada no Multipalco Eva Sopher, promovida pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae). O ato contou com a participação de tradicionalistas das cidades serranas de São Francisco de Assis e de São Francisco de Paula, onde o gênero musical surgiu. Os municípios realizam festivais dedicados exclusivamente a este ritmo, o Querência do Bugio e o Ronco do Bugio, respectivamente.


A origem do ritmo remonta aos tropeiros do século XIX que imitavam o ronco do bugio em suas gaitas de fole. Mas o gênero musical tem outras peculiaridades, agregando também elementos da cultura indígena da etnia Guarani. O pesquisador e luthier de acordeão Israel Da Sois Sgarbi, de São Francisco de Paula, autor do livro “O ritmo musical do bugio”, explica que os tropeiros e os indígenas se comunicavam muito por mímica em seus acampamentos, sempre próximos de matas com bugios.


Nesses encontros, onde havia festa e danças, era utilizada uma espécie de chocalho feito de taquara para bater no solo e marcar o ritmo, o takuapu, geralmente usado pelas mulheres. Este teria sido o primeiro compasso do bugio. Mais tarde, os tropeiros agregaram o acordeão, o violão e a rebeca. O takuapu é feito de um tubo oco de bambu usado em cantos, danças e também em rituais.


Já a dança do bugio reproduz os passos do primata. É um pouco parecida com a Vanera, mas são dois passos, um pulinho, e mais dois passos, de modo rápido. Na década de 1950 os irmãos Bertussi gravaram em um estúdio do Rio de Janeiro o primeiro disco com o novo ritmo, “Casamento da Doralice”. 


O ato que transforma o Bugio em patrimônio cultural imaterial gaúcho faz parte das comemorações do Dia Estadual do Patrimônio Cultural, comemorado sempre no terceiro fim de semana do mês de agosto. No dia 15, sexta-feira, às 19h, o marco das comemorações será o badalo simultâneo de sinos de igrejas e tambores de terreiros em diversos municípios, incluindo Porto Alegre.


Em seguida, a Casa de Cultura Mario Quintana, no Centro Histórico de Porto Alegre, será palco da apresentação de um coro com 150 vozes, distribuídas pelas janelas, passarelas e sacadas da instituição, que cantará músicas populares do Rio Grande do Sul. O grupo é formado por integrantes de 27 coros associados à Federação de Coros do RS (Fecors), sob regência do maestro Eduardo Alves.


Bugio, primata americano


O bugio também é chamado de macaco-ruivador, guariba e barbado. Ele é um Aloutta, gênero de primata natural das Américas. A espécie tem uma ampla distribuição geográfica, desde o México até o norte da Argentina. São animais de porte relativamente grande e de dieta predominantemente folívora, ou seja, consomem basicamente folhas, mas também podem consumir frutas e ovos. Vivem em grupos de até 18  indivíduos, com um macho dominante e muitas fêmeas.


Os machos emitem uivos altos e graves, que servem para marcar território, comunicar a localização do grupo e estabelecer hierarquias sociais. As fêmeas também vocalizam, mas suas chamadas são mais suaves. O ronco do bugio pode ser ouvido a quilômetros de distância.




 Laboratório da UFRGS na Antártica é tema de documentário

O laboratório Criosfera 1, na Antártica, é a locação escolhida pela National Geographic para o documentário Pole To Pole, que estreia dia 13 de janeiro de 2026 na plataforma de streaming Disney+, apresentado pelo ator Will Smith. Inaugurado em 2012, o Criosfera 1 é uma iniciativa da UFRGS- Universidade Federal do Rio Grande do Sul em parceria com várias instituições de pesquisa científica.

Will Smith esteve no Criosfera 1 no verão antártico de 2022 para mostrar como os pesquisadores trabalham e lideram pesquisas sobre as mudanças do clima. O ator, de 57 anos, que também é músico e produtor, é natural da Filadélfia, Estados Unidos, e conquistou o Oscar de melhor ator, em 2022, com o filme King Richard.

Além da UFRGS, Criosfera 1 reúne pesquisadores parceiros da Uerj- Universidade do Estado do Rio de Janeiro, do Inpe- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, e outros usuários da plataforma científica como a Universidade de São Paulo (USP), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). O Criosfera 1 foi possível graças aos investimentos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), CNPq/Proantar, Comissão Interministerial para Recursos do Mar, Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), FAPERJ e Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (Fapergs).

100 dias


Após três anos de produção, a série acompanha Will Smith em uma jornada de 100 dias pelos sete continentes, dos campos de gelo na Antártica à floresta amazônica, das montanhas do Himalaia aos desertos africanos, das ilhas do Pacífico aos icebergs do Ártico. Na expedição de polo a polo, Smith viaja acompanhado por cientistas, exploradores e especialistas locais, participando de descobertas científicas e criando conexões com as comunidades por onde passa. 

 

A reitora da UFRGS, professora Márcia Barbosa, comentou sobre o documentário. “Ele dá publicidade a algo que a universidada faz há muito tempo, que é a pesquisa científica na Antártica, medindo a relação entre as emissões de gases e as mudanças climáticas. Hoje a UFRGS é uma liderança reconhecida, coordenando o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia no tema. Realizamos igualmente um projeto de circunavegação do Polo Sul sob a liderança do nosso professor, o glaciólogo Jefferson Cardia Simões”. A reitora destaca ainda “que esta liderança é fundamental para entendermos os efeitos das enchentes e das secas que afetam o Rio Grande do Sul”. 

O Criosfera 1 foi instalado no verão de 2011/2012 por uma expedição do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (INCT da Criosfera), usando logística contratada da Antarctic Logistics Expeditions (ALE). O módulo fica no manto de gelo da Antártica Ocidental e é dotado de sistemas eólico e solar que permitem o seu funcionamento de forma ininterrupta, demandando apenas uma manutenção de 20 dias no mês de janeiro de cada ano. 

Criosfera 2

Em janeiro de 2023, pesquisadores da UFRGS concluíram com sucesso a instalação do Módulo Científico Criosfera 2.  Ele foi implantado pelos pesquisadores no interior do continente antártico.

O Criosfera 2 está localizado sobre uma calota de gelo com aproximadamente 600 metros de espessura, ao sul do Mar de Weddell, com vista para a montanha mais alta da Antártica, o maciço Vinson com 4.897 metros de altitude. A temperatura no Criosfera 2, durante o inverno, pode cair a 40 graus negativos.

É a partir dessa região que as massas de ar frio provenientes do platô polar abastecem o mar de Weddell, no inverno, e são responsáveis pela intensificação de eventos extremos e ondas de frio no Sul do Brasil. O módulo funciona em condições climáticas especiais, porque está instalado a 2,2 mil metros ao Sul da Estação Brasileira Antártica Comandante Ferraz, contra os 900 metros do Crioesfera 1. 

Para saber mais, leia a entrevista com o glaciólogo Jefferson Cardia Simões:

https://www.brasildefato.com.br/2025/02/20/alem-de-catastrofes-climaticas-degelo-cria-nova-geopolitica-diz-glaciologo-da-ufrgs/






domingo, 14 de dezembro de 2025

 Congresso Nacional de Jornalistas é marco histórico


Evento define agenda de lutas e declara enfrentamento à censura



Jornalistas de todo o Brasil participaram do 40º Congresso Nacional da categoria, encerrado na sexta-feira  (12), em Brasília. Este foi o primeiro congresso presencial após a pandemia de Covid e do período de governo do ex-presidente da República Jair Bolsonaro, caracterizado por ataques à imprensa e estímulo à violência contra jornalistas.


“A gente viveu anos de muita hostilidade, desinformação e violência contra o nosso trabalho, então estar aqui agora, reunida com colegas do país inteiro, tem um significado enorme, ainda mais em uma semana na qual a extrema direita protagonizou mais um episódio de violência contra jornalistas e cerceamento do nosso trabalho dentro da Câmara dos Deputados. Os ataques não ficaram no passado e esse encontro mostra o quanto precisamos estar organizados e unidos”, afirmou a jornalista Sílvia Fernandes, que participou do evento junto com a colega Stela Pastore, ambas representando o Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul (SindjorRS), 


Ela destacou também a participação dos jornalistas que estiveram na audiência da Comissão de Direitos Humanos do Senado, conduzida pelo senador Paulo Paim (PT/RS), que mostrou como o discurso de ódio afeta a liberdade de imprensa e também como o assédio judicial é usado para calar jornalistas e veículos, principalmente os independentes, que fazem denúncias e jornalismo investigativo. A Fenaj- Federação Nacional dos Jornalistas apresentou o relatório anual que denuncia a violência contra jornalistas, produzido em conjunto com os sindicatos dos Estados. “Foi uma atividade que deu visibilidade aos graves problemas enfrentados pela categoria e mostrou a necessidade de pautar a formulação de políticas para esse enfrentamento”, salientou Fernandes.


Os jornalistas representantes de 22 unidades da Federação aprovaram propostas que definem as principais bandeiras de luta da categoria, algumas já incorporadas pela Fenaj e sindicatos, como a campanha salarial nacional, que unifica e fortalece os sindicatos nas negociações salariais, a PEC- Projeto de Emenda à Constituição do Diploma, pela volta da exigência do diploma para obtenção do registro profissional, a regulação das Big Tecs,como a Meta, por exemplo, que obrigue as plataformas a remunerar o uso do conteúdo jornalístico e também a defesa profissional contra a precarização decorrente da terceirização, que empurra jornalistas para o uso de CNPJ como vínculo de trabalho, desobrigando as empresas do cumprimento de benefícios legais.


Além dessas questões, o Congresso também discutiu sobre o uso da IA- Inteligência Artificial e os impactos que provoca na profissão. Uma das teses aprovadas definiu a necessidade de estabelecer princípios que orientem o uso da IA no trabalho jornalístico e que preservem os direitos dos profissionais. O Congresso ainda decidiu pela realização de seminário nacional para discutir a reformulação do Código de Ética dos Jornalistas, culminando com a realização de um congresso extraordinário de reformulação.


As representantes do Sindjors apresentaram duas teses e uma moção que foram aprovadas no Congresso. A moção é em apoio à TVE e à Rádio Cultura FM, que sofrem processo de desmonte desde 2016, e as teses são a que propõe a criação de um Coletivo Jurídico Nacional para fortalecer de forma estratégica a Fenaj, e a que exige a jornada legal de  cinco horas diárias para jornalistas no serviço público.


A jornalista Stela Pastore destaca que o ponto alto do Congresso foi o lançamento oficial da Campanha Salarial Nacional Unificada dos Jornalistas 2026. “A iniciativa visa unificar a luta dos sindicatos estaduais por reajustes dignos e pela manutenção de direitos. O debate denunciou a "pejotização" (contratação via Pessoa Jurídica) não como empreendedorismo, mas como uma armadilha e fraude trabalhista que retira direitos básicos, como férias e previdência, mantendo a subordinação do trabalhador. A mensagem foi clara: jornalista é trabalhador e exige respeito à CLT”.


Laura Santos Rocha, jornalista que preside o SindjorRS, disse que o Sindicato fez um esforço enorme para conseguir encaminhar as duas colegas jornalistas ao evento, “por entender a importância das entidades sindicais trabalharem de forma conjunta para tentar, no mínimo, diminuir os impactos que os desmontes trabalhistas estão causando na nossa categoria, tirando direitos de trabalhadoras e trabalhadores da comunicação. Pensar de forma ordenada ações futuras é sempre mais eficaz”.


Feito histórico


A coordenadora-geral do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SindjorDF), Bibiana Garrido, destacou que o 40° Congresso Nacional é um feito histórico por reunir centenas de profissionais e estudantes em torno da discussão sobre o futuro da categoria. “Ganhou mais força, ainda que por um motivo infeliz, depois do episódio de censura e violência contra profissionais da imprensa ocorrido no Congresso Nacional, com o presidente da Casa, deputado Hugo Motta (Republicanos/PB), impedindo o acesso da imprensa ao plenário”, lembrou Garrido.


Ela afirmou que “casos como esse mostram que o momento é de união e de mobilização coletiva, porque não apenas sofremos violência física durante o exercício da profissão, como nós, jornalistas brasileiros, estamos seguidamente lidando com perdas de direitos. Desde a derrubada da obrigatoriedade do diploma e a contrarreforma trabalhista, a precarização, e a pejotização do trabalho das e dos jornalistas têm adoecido profissionais com baixos salários, acúmulo de função, contratos irregulares e exposição a violações diversas. Nós podemos reverter esse cenário e conquistar o respeito à nossa categoria, com condições dignas de trabalho, por meio da luta e engajamento da categoria com seus coletivos, sindicatos e demais entidades representativas”. 


Apoio institucional


O 40º Congresso Nacional dos Jornalistas contou com o patrocínio da Caixa Econômica Federal (CEF), Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), Banco do Nordeste (BNB) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), além do apoio da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), Associação dos Docentes da UnB (Adunb), Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco), Sindicato dos Fazendários do Ceará (Sintaf-CE), Sindicato dos Bancários do DF e Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes).


Relatório da Fenaj 


O Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil, elaborado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ ), analisa o cenário de agressões, intimidações e censura contra os profissionais da imprensa no ano de 2024. Embora tenha ocorrido uma redução no número total de ataques a jornalistas, em comparação com os anos anteriores, o cenário ainda é alarmante e revela características preocupantes sobre a continuidade da violência contra os operários e operárias na notícia.


Em 2024, o número de ataques contra jornalistas teve redução, com o registro de 144 casos. Isso representa uma considerável queda, considerando o auge da violência nos anos do governo Bolsonaro (PL), que, desde o início de sua gestão, em 2019, tornou-se um dos principais agressores da imprensa, com discursos que incentivaram ataques físicos e verbais a jornalistas, em especial aqueles que confrontavam o discurso de negacionismo e desinformação.


Entre os tipos mais recorrentes de violência em 2024, o que se destacou foi o assédio judicial, uma das práticas mais graves contra o exercício profissional. O uso do sistema de justiça como instrumento de intimidação e censura foi a estratégia adotada por políticos, empresários e líderes religiosos autores dessa estratégia. Essa instrumentalização da lei visa silenciar profissionais da imprensa por meio de processos judiciais abusivos. Outro tipo de violência foram as agressões físicas e as ameaças presenciais. No total, foram contabilizados 30 casos de agressões físicas e 27 ameaças diretas. Cabe destacar que as agressões aumentam em ano eleitoral. A íntegra do relatório de 46 páginas está disponível no link 

https://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Relatorio-da-Violencia-2024.pdf









 Todos perdem com a ditadura


Fabico/UFRGS realiza evento com a participação da

presidenta da Comissão Memória e Verdade



O 6º Ciclo de Seminários Arquivos, Memória e Direitos Humanos encerrou na noite de quinta-feira (11), no Auditório II da Fabico- Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação com palestra da professora Roberta Baggio, presidenta da Comissão Memória e Verdade  (CMV) Enrique Serra Padrós da UFRGS- Universidade Federal do Rio Grande do Sul.  O tema escolhido pelas alunas foi “A Memória da Ditadura pelos Olhos do Jornalismo”, com coordenação do professor do curso de Arquivologia Jorge Eduardo Enriquez Vivar.  


O encontro, que coincidiu com o aniversário de um ano da Comissão Memória e Verdade, abriu com um painel apresentado pelas alunas destacando o papel da imprensa na cobertura do período ditatorial, mesmo sob forte censura. No entanto, salientaram que os grandes veículos, inicialmente, apoiaram o golpe militar de 1964. Vários jornais e revistas foram retirados das gráficas e dos pontos de venda durante o período de arbítrio que se estendeu até 1985.


O auditório da Fabico, ocupado majoritariamente por jovens, foi descobrindo aos poucos que a ditadura perseguiu estudantes, funcionários e professores da universidade, culminando com a expulsão e a exoneração de dezenas de pessoas. E fora do espaço acadêmico, prendeu, torturou e assassinou centenas de pessoas que se opuseram à ditadura, como ocorreu com o jornalista Vladimir Herzog, assassinado em 1975, em São Paulo, quando se apresentou para depor. Em honra a Herzog, 50 anos após seu assassinato, ex-estudantes da Fabico recolocaram, neste ao de 2025, a placa com seu nome no diretório acadêmico. Placa que havia sido retirada pela repressão em 1975.


Após a apresentação do painel das alunas,  a professora Roberta Baggio iniciou sua fala afirmando que “desvelar o papel da ditadura dentro da universidade é a missão da Comissão Memória e Verdade”. Ela explicou que a Comissão da UFRGS foi uma das últimas a ser criada no Brasil no âmbito do espaço acadêmico. Essa era uma recomendação do Ministério Público Federal e que vinha sendo protelada. Com a eleição e a posse da reitora Márcia Barbosa, em 27 de setembro de 2024, a Comissão pode, finalmente, ser criada e sua instalação aconteceu em dezembro. Agora, em 2025, a Comissão completou um ano. 


A professora Baggio elogiou a relevância do evento e a iniciativa das alunas e do professor Jorge Eduardo Enriquez Vivar “porque este é um encontro geracional. É importante que as novas gerações saibam que a ditadura foi nefasta para toda a Nação, não foi apenas no ambiente universitário. Todos perdem na ditadura”. Ela disse ainda que “temos uma dívida moral com as pessoas daquela época, que viveram no período da ditadura e a enfrentaram”.


A Comissão Memória e Verdade é formada por nove mulheres e tem duas grandes frentes de trabalho. Uma delas é organizar os arquivos documentais, realizando visitas a várias unidades da UFRGS. A CMV esteve na Fabico, onde o material está bem organizado. Outra frente, é a de testemunhos, que também conta com o apoio técnico da Fabico. Estão sendo gravados testemunhos com sobreviventes da ditadura, são ex-alunos, ex-servidores e ex-professores que foram perseguidos, expulsos ou banidos.


A presidenta da Comissão revelou que “gostaria que a UFRGS tivesse vários marcos para assinalar os espaços de resistência à ditadura, como é o monumento em homenagem ao professor Enrique Serra Padrós e que empresta seu nome à Comissão”. O monumento fica próximo à Reitoria. “E a placa com o nome do jornalista Vladimir Herzog, recolocada no diretório acadêmico da Fabico 50 anos após o assassino do jornalista por agentes da ditadura”, destacou Baggio. 






segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

 Ex-estudantes da UFRGS dão testemunho sobre a ditadura na universidade

A repressão marcou a vida dos estudantes para sempre. Muitos foram presos, alguns passaram para clandestinidade e outros seguiram para o exílio.

Três ex-estudantes da UFRGS- Universidade Federal do Rio Grande do Sul participaram de uma audiência pública onde deram seu testemunho sobre os anos de chumbo da ditadura no ambiente acadêmico e como o golpe militar de 1964 afetou suas vidas. O evento foi realizado na sexta-feira (28 de novembro) na Sala II do Salão de Atos do campus central, mesma data do aniversário de 91 anos da universidade, e foi organizado pela Comissão Memória e Verdade (CMV) Enrique Serra Padrós da UFRGS.

Os ex-universitários são Dilza de Santi, João Ernesto Maraschin e Henrique Finco. Santi ingressou na universidade em 1966, no curso de Filosofia, foi vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) e, em 1968, foi punida pela UFRGS e obrigada a abandonar o curso, quando passou a viver na clandestinidade em São Paulo.  Maraschin cursava Direito e Sociologia em 1968. Em 1970, foi presidente do Centro Acadêmico Franklin Delano Roosevelt e, em 1971, foi eleito presidente do DCE. No ano seguinte, foi expulso com base no Decreto 477, quando passou para a clandestinidade e a experiência do exílio. O terceiro ex-aluno, Henrique Finco, era do curso de Engenharia em 1974, participou do III Encontro Nacional de Estudantes de Belo Horizonte, em 1977. Perseguido pela repressão, foi obrigado a abandonar a faculdade.

A audiência pública, a primeira realizada pela Comissão, faz parte dos trabalhos de apuração sobre as perseguições e a repressão ocorridas no ambiente universitário durante a ditadura vivida pelo Brasil a partir do golpe militar em 1964. O evento contou com a presença do vice-reitor da UFRGS, professor Pedro Costa, que deu as boas-vindas aos participantes do evento e destacou a importância de resgatar a memória e defender os espaços democráticos para que atos golpistas não se repitam. A professora Roberta Baggio, presidenta da Comissão, salientou o trabalho das integrantes da CMV, todas mulheres, além dos bolsistas e de voluntários. 

Para Baggio, “estamos diante de um encontro geracional, ex-alunos entregando um legado para os alunos atuais, confirmando o compromisso histórico da universidade pública com a democracia”. Ela informou que a Comissão já realizou 46 reuniões, construiu um site, tem conteúdo no Instagram e diversas pesquisas, que estão sendo digitalizadas e serão disponibilizadas ao público. Tanto no site como no Instagram, há um QR code que leva a um formulário para quem desejar contribuir com informações sobre o período da ditadura na UFRGS. 

Depoimentos

Dilza de Santi, natural de Uruguaiana, estudou em colégio religioso na cidade, fez o curso de Magistério e de Contabilidade e, com o auxílio das freiras, aprendeu o método Paulo Freire de alfabetização de adultos. “Devo minha formação humanista à educação que recebi e à participação ativa na Juventude Católica”, conta. Liderança secundarista e ativista política, Dilza passou a dar aulas de alfabetização a adultos que viviam nas barrancas do rio Uruguai, em 1963. Não demorou muito tempo para que esse ato de inclusão social fosse considerado subversivo e ela foi chamada para prestar depoimento, que acabou sendo lido na rádio da cidade como prova de sua transformação em uma perigosa comunista.

A jovem professora e sua família não tinham mais ambiente para permanecer em Uruguaiana, vieram para Porto Alegre, onde Dilza conseguiu emprego e ingressou na faculdade de Filosofia, onde logo se tornou uma forte liderança e referência política, sendo perseguida pelos agentes da ditadura. Em 1968, Dilza mudou para São Paulo, adotou outro nome, foi morar no ABC, clandestina, mas precisou sair da região e seguiu para a capital do estado.

Estava sem nada, nem documentos tinha. Com o auxílio de alguns contatos, conseguiu trabalho em um instituto de pesquisa que não exigia documentos para contratar e pagava em dinheiro. O instituto era do empresário Sérgio Motta, o Serjão, que na democratização do Brasil viria a ser ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso. Foi nesse instituto que Dilza conheceu outro estudante perseguido pela ditadura, Mário, que cursava Sociologia na USP, com quem casou, e estão juntos até hoje. Anos depois, Dilza conseguiu concluir o curso de Filosofia na USP.

“Muito emocionante estar aqui”, disse Dilza no começo de seu testemunho na audiência pública. “Voltei à UFRGS em apenas duas oportunidades, na formatura de meus dois filhos, em Jornalismo e em Arquitetura, mas ainda não tinha encontrado colegas da minha época”. O marido, Mário, e o filho, jornalista, Alexandre, acompanharam Dilza no depoimento.

João Ernesto Maraschin iniciou seu testemunho revelando que “o que nos movia naquela época era a luta por liberdade, nós fomos um incômodo para a ditadura porque não abandonamos a utopia”. Maraschin ingressou nos cursos de Direito e de Sociologia em 1968, tendo participado ativamente do movimento estudantil e das lutas por mais vagas, mais verbas para a educação e contra os acordos MEC/USAID. Comovido com o evento na UFRGS, Maraschin avalia que “as emoções lubrificam nossas histórias”.

Ele foi vice-presidente do Centro Acadêmico Franklin Delano Roosevelt, assumindo a presidência em 1970. Em 1971, foi eleito presidente do DCE e, no ano seguinte, foi expulso com base no Decreto 477. Passou pela experiência da clandestinidade e do exílio. Do Brasil, Maraschin foi para o Chile, mas o golpe militar contra o governo de Salvador Allende, resultou em sua prisão no Estádio Nacional, de onde milhares de pessoas foram levadas para a morte no deserto do Atacama e no mar, sendo jogadas de avião. Quando foi liberado, seguiu para a Suíça, voltou ao Brasil em 1979 com o processo de anistia. Não conseguiu concluir a faculdade. Sua vida mudou para sempre.

Henrique Finco, atualmente professor titular de cinema na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), era estudante de Engenharia em 1974. Atuou no movimento estudantil da UFRGS em episódios como as eleições diretas para o DCE em 1975, o III Encontro Nacional de Estudantes de Belo Horizonte em 1977 e a resistência na Praça Argentina, em 1980, contra a visita do ditador Jorge Videla, dentre outros episódios. Em 1985, concluiu o curso de Jornalismo na UFRGS. Finco é cofundador do Curso de Cinema da UFSC.

Finco era bolsista da universidade, recebia um auxílio em dinheiro e morava na Casa do Estudante (CEU). Por ter participado de um congresso de estudantes em Belo Horizonte (MG), foi punido com a perda da bolsa e expulso da CEU e acabou fichado no DOPS- Departamento de Ordem Política e Social. Sem ter como se manter, abandonou o curso e passou a viver com a ajuda de amigos. Muitos anos depois, ingressou no curso de Jornalismo da UFRGS.

Na plateia da audiência pública, muitos ex-alunos da universidade, alunos atuais, o ex-prefeito de Porto Alegre, Raul Pont, também egresso da UFRGS, Camilo Celiberti, que aos 7 anos de idade foi sequestrado em Porto Alegre junto com a mãe, Lilian, a irmã, Francesca, com 3 anos de idade, e o militante Universindo Dias, em 1978, na Operação Condor. Também presente a audiência, José Vieira Loguércio, preso no Congresso da UNE- União Nacional de Estudantes em Ibiúna em 1968, entre outros tantos nomes que lutaram contra a ditadura e ajudaram a construir memórias coletivas.


Comissão da Memória e da Verdade 

A Comissão da Memória e da Verdade “Enrique Serra Padrós” busca coletar e disponibilizar os registros sobre as violações de direitos humanos que aconteceram na UFRGS entre 1964 e 1988, período marcado pelo regime autoritário instaurado no Brasil, entre 1964 e 1985.

No período entre 1964 e 1969, a UFRGS teve dois processos de expurgo, nos quais foram expulsos inúmeros docentes, estudantes e técnicos, além da aposentadoria compulsória de vários profissionais. O trabalho envolverá um canal de escuta, arrecadação de documentos da época, testemunhos, entre outros.

O nome da Comissão é uma homenagem ao professor Enrique Serra Padrós, que atuou no Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da UFRGS. Padrós, que morreu em 2021, dedicou sua trajetória acadêmica à pesquisa sobre regimes autoritários na América Latina.


 Com silêncio ou conversa, na canoa o consenso é o principal

Gera discussão e, às vezes, até briga, falar ou silenciar na canoa. Isso divide opiniões. Porque cada um tem a sua, mas o que deve prevalecer é o bom senso, além de um briefing antes de embarcar. Impor silêncio na marra e tentar sabotar o grupo exigindo do banco 3 um hip dito bem baixinho é autoritarismo. Longos papos na canoa, por sua vez, atrapalham a sincronia e podem tornar o hip e a voz do comandante inaudíveis. Por outro lado, vários comandos ditos de vários bancos, quando o comandante é o soberano na canoa, também não ajudam em nada e até podem causar acidentes. Aloha ouviu dois remadores e duas remadoras sobre o tema e espera contribuir para um entendimento harmônico, como deve ser em uma ohana.

O remador Marcelo Bosi, 50 anos, empresário, instrutor e atleta de canoagem, fundador da escola Alma Azul Academy, com base no Lago Norte, em Brasília, e no Rancho do Kite, na praia cearense do Preá, é um dos pioneiros da canoagem no Brasil e  tem uma história de sucesso no esporte, competindo há três décadas e conquistando títulos nacionais, sul-americanos e mundiais. Bosi esteve inúmeras vezes nas ilhas da Polinésia e já remou nas águas geladas da Antártica em uma V3. Ele é uma lenda viva.


Bosi conversou com a Aloha sobre silêncio e conversas na canoa. “Quando o treino busca melhor performance, a conversa precisa ser limitada, porque com muita conversa se perde o foco, a atenção e a sensibilidade do ritmo. Mas a comunicação é muito importante. O capitão tem de saber se comunicar de uma forma bem assertiva com a tripulação, se puxa mais, se alivia um pouco, pra não deixar a canoa tensa. Se o capitão falar de forma ríspida, enérgica, os remadores ficam estressados e não flui, perde-se muita energia”.


Em relação as remadas de lazer e passeios, Bosi destaca que “é preciso ser mais livre, as pessoas não estão ali com a intenção de performar, estão ali com a intenção de se divertir, de apreciar e, muitas vezes, é a primeira vez que alguém está remando e o novato quer se expressar, quer compartilhar. Nesse caso, quem está conduzindo a canoa precisa dar liberdade, evitar que o ambiente fique tenso, porque o propósito não é de competição. É preciso ter sensibilidade para conduzir a canoa e saber qual é o objetivo de cada remada. Eu mesmo não exijo nada em passeios, quando o objetivo não é performar, deixo as pessoas se divertirem, o ambiente tem de ser leve. O condutor deve ter sabedoria para perceber quando deve intervir, mas sempre com cuidado. Não pode ser autoritário”.


Marcelo Bosi começou a remar com oito anos de idade, no Lago Paranoá, em Brasília, quando seu pai mudou para uma casa no bairro Lago Norte e comprou um caiaque de turismo.  Quando completou o segundo grau, Bosi foi viver em Seattle, Washington, nos Estados Unidos. A região tem uma forte cultura de travessias em caiaque oceânico e Bosi começou a fazer expedições e viu pela primeira vez canoas havaianas, de uma comunidade tradicional, que vivia na região.


Ao retornar ao Brasil, ele continuou a fazer expedições pelo litoral e também em lagos, foi quando resolveu montar uma empresa de turismo de caiaque e foi incentivado a importar canoas havaianas para Brasília, em 2003, com o propósito de conectar as pessoas com uma atividade lúdica com a água e que é ancestral. Em 2020, Marcelo Bosi viajou 30 dias na Antártica, dos quais nove de canoa, uma V3, revivendo o mito polínésio do ano 650. Ele acompanhou a expedição do fotógrafo João Paulo Barbosa, que viajou à Antártica a bordo do veleiro Kotik.

Nos lagos Guaíba e Paranoá

Cada remada tem a sua alma”, define Henrique Ferreira, 40 anos, psicólogo, remador e lemista de canoa polinésia no Clube Kalola Va’a, nas margens do Lago Guaíba, em Porto Alegre. Mais que uma frase perfeita para uma  ohana, aqui há a noção exata de propósito. Quando a remada é de treino e de competição, a equipe precisa de total concentração, sincronia e silêncio para que as palavras de comando possam ser ouvidas por todos. Mas quando a remada é um passeio ou uma expedição o comportamento é outro porque existe um ambiente de socialização e a cronometragem é dispensada. 

Ferreira explica com a transparência que sua formação de psicólogo ensinou, “existe remada de passeio, leve, onde o objetivo é curtir o momento, conversar, dar risada, sentir o balanço da canoa e o clima do grupo. Claro que existe sincronia, respeito e noção de coletivo, mas sem aquela rigidez de treino. Não tem cronometragem, não tem pressão, não tem aquela exigência de silêncio absoluto. É outra energia”.

A conversa não é um problema. E o silêncio de monastério também não. “O problema existe quando alguém tenta impor o estilo errado para o tipo de remada que está acontecendo. Silêncio total em remada de passeio não faz sentido e conversa solta em treino técnico atrapalha. O que importa é alinhar antes, com respeito e maturidade. Quando isso acontece, a canoa navega redondo. Todo mundo se sente parte. E a água agradece”.

Quando a gente fala de treino e competição, o jogo muda, destaca Ferreira. A sinergia precisa ser combinada antes. Banco 1, 2 e 3 não podem estar remando focados enquanto 4, 5 e 6 estão batendo papo, por exemplo. Isso desorganiza, quebra o ritmo e mexe com o espírito da remada. Já competi em guarnições que treinavam em silêncio total, quase um ataque furtivo. Hip suave, pouca água batendo, remo sem barulho, todo mundo conectado no mesmo propósito. Era a cultura daquele time. Já estive em outras equipes onde o hip vinha forte, cheio de energia, e isso dava o tom da remada. E tudo funcionava porque havia um acordo. 


Aloha também conversou com duas remadoras sobre silêncio e conversas. Adriana Peppl, 57 anos, de Porto Alegre, é atleta de alta performance, Eni Braga, 51, bióloga, rema no Lago Paranoá, em Brasília. 


Adriana é uma atleta conhecida nas raias de provas. Segundo ela mesma, “carrego no remo meu caminho, minha identidade e minha força. Minha história na água começou cedo, do bodyboard à juventude, do SUP às primeiras remadas e,  em 2016, encontrei no va’a o lar onde corpo e espírito se alinham. Hoje vivo a canoa em todas as suas formas, OC1, OC2, V3 e OC6”. A atleta conta que “rema com o propósito de honrar a cultura, fortalecer a equipe e seguir aprendendo com o oceano, meu maior mestre”. 


Para Adriana, “o silêncio não é vazio, é o instante em que todos respiram no mesmo ritmo, quando o mar parece guiar a embarcação e cada remador sente o outro sem precisar de palavras. É ali que a canoa vira um só corpo, e o oceano, um mestre. Silenciar é honrar a ancestralidade, escutar o coração da água e deixar que ela conte o caminho”.


Ela conhece que também há o momento da palavra, “poucas, precisas e verdadeiras. Conversar antes de entrar no mar, alinhar intenções, partilhar o espírito da remada. Falar para orientar, para cuidar, para fortalecer o laço que une a equipe”. Adriana ainda destaca que “na canoa, cada grupo aprende que a travessia acontece nesse balanço: falar quando a alma precisa se alinhar, silenciar quando o mar pede escuta. A remada, então, torna-se um fluxo natural entre esses dois estados”.


As marés a levaram a conquistas que moldaram quem Adriana se tornou: pódios na cena gaúcha de SUP e de canoa polinésia, Black Medal no Aloha Spirit, e voltas a algumas ilhas que guardam histórias, como Ilha Grande, Ilhabela, Florianópolis e Porto Belo. Ela já cruzou 50 km de mar entre Itapema e Governador Celso Ramos, celebrou o título de Campeã Brasileira 2022 – Estreantes, garantiu a vaga na Seletiva Sprint 2023 em Brasília, e viveu a honra de competir no Mundial de Sprint 2024, em Hilo, no Havaí.


A remadora de Brasília, Eni Braga, conta que “curto muito o va’a justamente na sua vertente coletiva. Nesses três anos de esporte, apesar das recomendações de amigos e professores, ainda não tive vontade de remar canoa individual. Sintonizar com os companheiros para um deslocamento eficiente na água, enfrentando o desafio físico, ao mesmo tempo em que a natureza está ali também buscando a minha atenção junto com tudo que se passa na canoa, é o grande barato desse esporte. Me faz sentir muito viva e potente!”


A remadora, que compete na categoria master, salienta que “conexão e sintonia, fundamentais na prática desse e de outros esportes coletivos, envolvem comunicação e ela acaba acontecendo de diferentes formas. Conversa e silêncio, cada qual tem o seu momento e serventia. Aulas, passeios e até treinos, por que não? - indaga Eni, são momentos pra, junto com a técnica, também compartilhar emoções, percepções, experiências. Falar, ouvir, rir, brincar, pedir e dar atenção no momento certo faz parte e ajuda a criar a atmosfera de ohana tão própria desse esporte que, feliz e lindamente, tenho encontrado nas bases de Brasília”.


No entanto, Eni percebe que, por outro lado, “o silêncio é o que proporciona conexão nos momentos em que os corpos e mentes de todos estão focados no balanço, deslocamento e comandos. Nesse momento, qualquer som fora do combinado quebra tudo e dificulta que essa unidade tão forte e, ao mesmo tempo delicada, se estabeleça. Quem dirá gritos desesperados de vai, força ou comandos aleatórios vindos de todos ou qualquer um em momentos de cansaço ou dificuldade”. A remadora de Brasília já participou de competições e conquistou quatro medalhas. Eni revela que adora as provas, mas não faz delas o seu propósito na canoagem.


Comandos aleatórios, vindos de qualquer banco, confrontando quem está conduzindo a canoa, é mais grave do que uma conversinha a bordo e podem provocar acidentes. Imagine uma situação em que o condutor já calculou todo o trajeto mentalmnete e está conduzindo o leme com destreza, quando alguém da canoa resolve acelerar e dar ordens porque acha que a canoa vai bater na embarcação que está próxima. É aí que tem huli!


Cultura polinésia é oral

A navegação polinésia e o povoamento do Oceano Pacífico começaram há milhares de anos. Os habitantes das ilhas do Pacífico atravessavam vastas extensões oceânicas em canoas de casco duplo, conhecidas como catamarã, ou com estabilizadores, guiando-se exclusivamente pelo conhecimento das estrelas e pelas observações dos padrões do mar, dos ventos, das nuvens e das aves. Todo o conhecimento era passado de geração em geração em conversas e o ensinamento dos jovens era dentro da canoa, em longas conversas e troca de experiência com os mais velhos. 

A pesquisadora Kim Martins, da Nova Zelândia, com várias publicações sobre povos ancestrais, em especial os polinésios, destaca que os “habitantes das ilhas eram navegadores habilidosos que memorizavam instruções de navegação e transmitiam seus conhecimentos por meio de folclore, heróis culturais e histórias orais simples”. A escritora, além de ser bacharel em História e Direito, é mestra em Ciência do Caos e Complexidade.

O Oceano Pacífico cobre um terço da superfície da Terra, com 165,25 milhões de quilômetros quadrados e suas ilhas remotas foram as últimas a serem alcançadas por navegadores. Os ancestrais dos polinésios, o povo Lapita, partiram de Taiwan e colonizaram a Oceania Remota entre 1100 e 900 a.C. Os Lapita eram navegadores habilidosos que memorizavam instruções de navegação e transmitiam seus conhecimentos por meio de folclore, heróis culturais e histórias orais simples.

E ainda tem a área geográfica da Oceania Remota conhecida como triângulo polinésio, que abrange Aotearoa (Nova Zelândia), Havaí e Ilha de Páscoa, no Chile, e inclui mais de 1.000 ilhas. Entre algumas dessas ilhas, as distâncias superam 1.000 quilômetros. A navegação exigiu conhecimento e habilidades extraordinárias para deslocar em uma canoa de casco duplo ou com estabilizador por cinco a seis semanas em direção a um destino esperado. Sim, os navegadores não se deslocavam à deriva numa viagem só de ida, eles sabiam para onde iam e que poderiam voltar caso necessário.