terça-feira, 25 de novembro de 2025

 COP-30


Catástrofes climáticas afetam a saúde mental



A COP-30 mostra para o mundo que tudo está relacionado e tem consequências. Desmatamento, poluição, monocultura, queima de combustíveis fósseis, derretimento das geleiras, aquecimento do oceano e consumo sem limites, entre outros fatores, têm influência direta na saúde mental das pessoas. Esse aspecto menos visível da catástrofe climática foi o tema da apresentação do professor Flávio  Kapczinski. Médico psiquiatra e pró-reitor de pesquisa na UFRGS- Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ele explica que a resiliência emocional e o trauma coletivo são aspectos presentes nas pesquisas que a universidade realiza desde a enchente de maio de 2024, que atingiu todo o estado gaúcho.


O médico destaca que “as comunidades do Rio Grande do Sul vivem um ciclo de impactos extremos e ainda estão aprendendo a se recompor. A resiliência é a capacidade de voltarmos ao estado de base depois do estresse. Mas, quando os eventos se repetem, ela se desgasta. Além da enchente, tivemos a pandemia de Covid, que fez milhares de vítimas. Ou seja, o estado viveu uma sequência de eventos traumáticos”. A pandemia de Covid causou a morte de  117.722 pessoas no estado e a enchente de 2024 atingiu fortemente 478 municípios gaúchos dos 497 existentes, alterando diretamente a vida de 2,4 milhões de pessoas. Centenas de famílias perderam suas casas e tudo o que havia dentro e milhares de pessoas foram deslocadas para abrigos. Memórias e redes de amizade foram desfeitas.


Membro titular da Academia Nacional de Medicina e da Academia Brasileira de Ciências, além de Fellow of the Royal College of Physicians of Canada, ganhador do prêmio Mogens Schou Award, o mais importante do mundo sobre transtorno bipolar, com dezenas de artigos científicos publicados, Kapszinski levou para a COP 30, encerrada oficialmente na sexta-feira, 21, o trabalho que desenvolve no espaço universitário e na clínica médica. Em conversa com Brasil de Fato.RS às vésperas de viajar para Belém onde apresentou seu trabalho no último dia 20, no Museu Emílio Goeldi, Kapczinski explicou o contexto vivido pela população gaúcha. “Tivemos a pandemia de covid, a enchente de 2023 e depois a de 2024. A população não teve tempo de se recompor. Isso corrói a resiliência”.


E vai além em sua análise do cenário. “Na minha área de atuação, posso afirmar que as mudanças climáticas agravam, ou acentuam, os determinantes sociais da saúde. Toda desigualdade e vulnerabilidade, em um contexto de desastre climático, são exacerbadas porque colocam as pessoas em maior risco e, muitas vezes, isso acaba ocasionando o agravo de doenças mentais já existentes ou o surgimento de novos agravos, a partir do evento de estresse”.


O médico salienta que o Rio Grande do Sul sofreu o primeiro evento climático extremo que afetou um estado inteiro da Federação. “Sabemos que na medida em que ocorrem situações de trauma, os sintomas de doença mental têm alta prevalência, algo como 60% no momento. Na medida que o tempo passa, um ano ou mais, esse índice vai caindo, ficando entre 5% a 10% de prevalência de transtornos que foram agravados ou induzidos pelo evento traumático. No caso gaúcho, em que tivemos a Covid e a enchente, é difícil apresentar estatísticas  ou conclusões definitivas. Mas, com base na literatura existente, podemos dizer que a retraumatização é um agravo, podendo piorar o quadro”. 


A apresentação do professor da UFRGS, Mudanças Climáticas e Saúde Mental, reuniu evidências globais e brasileiras indicando que a crise climática é uma das principais ameaças à saúde no século XXI, com repercussões diretas, indiretas e cumulativas sobre o bem-estar psicológico. O professor destaca que eventos como enchentes, secas, ondas de calor e queimadas aumentam significativamente a prevalência de ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e abuso de substâncias.


Apresentação na COP-30


Os principais pontos da apresentação feita na COP-30 destacaram:


   •   Aumento do risco de adoecimento psíquico após desastres ambientais, em especial entre jovens, mulheres, idosos, populações de baixa renda, povos indígenas e pessoas com condições mentais prévias.

   •   Relação comprovada entre aumento de temperatura e maior incidência de suicídio, bem como maior procura por serviços de urgência psiquiátrica durante ondas de calor.

   •   Impacto das vulnerabilidades socioeconômicas, que funcionam como amplificadores do risco mental em contextos de estresse ambiental.

   •   Efeitos comunitários pouco estudados, incluindo solastalgia (sofrimento psicológico causado por mudanças negativas no ambiente), ecoansiedade (preocupação geral com o futuro do planeta devido às mudanças climáticas) e perdas identitárias associadas ao território.


O trabalho de Kapczinski contém resultados preliminares de levantamentos realizados no Rio Grande do Sul após as enchentes de 2024, que coletaram mais de oito mil respostas e mostraram elevação persistente dos indicadores de sofrimento psíquico meses após o evento.


Como resposta, o professor defende a adoção de políticas públicas que integrem clima e saúde mental, com foco em três pilares:


 1. Promoção de saúde mental e fortalecimento do bem-estar populacional, elevando o “ponto de partida” psicológico das comunidades antes que desastres ocorram.

 2. Investimento em resiliência comunitária e capital social, considerados os mais fortes preditores de adaptação positiva após eventos extremos.

 3. Expansão e preparação das Redes de Atenção Psicossocial (RAPS) para atuar de forma estruturada nas etapas de prevenção, resposta e recuperação.


“O aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos é inevitável nas próximas décadas. Precisamos preparar comunidades, sistemas de saúde e políticas públicas para mitigar o impacto emocional dessas crises que se tornarão recorrentes”, afirmou Kapczinski.


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

 Rádio da UFRGS completa 68 anos no ar

Emissora foi criada para estudos sobre irradiação e transmissão. Música e informação vieram depois


A Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) completou 68 anos na terça-feira, 18, com uma confraternização entre funcionários, convidados, bolsistas e ex-bolsistas que passaram por lá ao longo de quase sete décadas de transmissão quase ininterrupta. A rádio ficou fora do ar uma única vez, logo após o golpe de 1964, quando foi requisitada pelos militares. Diante da reação dos estudantes, que ocuparam o prédio, a emissora foi fechada. Quando voltou a funcionar, a censura foi imposta e toda a programação era submetida ao censor. 

Com a redemocratização do Brasil, a rádio assumiu definitivamente a missão de levar cultura e informação aos ouvintes, estando presente nos principais eventos de Porto Alegre e também do Estado. Foi assim que a pequena e combativa equipe da emissora cobriu os festivais de Cinema de Gramado e a Feira do Livro, por exemplo. “A Rádio da Universidade progride em equipe, não se faz nada sozinho”, disse o diretor da emissora, musicólogo e doutor em História Cláudio Remião, na festa de aniversário.

A reitora da UFRGS, Márcia Barbosa, parabenizou a rádio e anunciou novidades. De acordo com a reitora, “a Rádio da Universidade tem uma longa história com a comunidade de Porto Alegre e com o seu entorno, mas chegou o momento de expandir, de fazer programação web, é hora da UFRGS estar na casa das pessoas mais distantes e também em todo o mundo”.

A jornalista Cláudia Heinzelmann, ex-diretora da Rádio da Universidade, e há 36 anos trabalhando na emissora, destaca a parceria da instituição com diversos movimentos sociais e instituições, como a ARI- Associação Riograndense de Imprensa, que veicula nas ondas da rádio o podcast Conversa de Jornalista. 

Para marcar o aniversário, a emissora, criada oficialmente em 1957, preparou uma programação especial, com uma seleção de músicas inéditas e dois novos programas: o Estúdio A, semanal, com gravações feitas nos estúdios da rádio ao longo de quase sete décadas de existência, e o Acervo 1080, que mergulha no gigantesco acervo da emissora, que conta com mais de 20 mil álbuns (vinis, CDs e outras gravações), veiculando esses registros na íntegra.

História

A Rádio da Universidade foi idealizada em 1948 por Antônio Alberto Goetze, professor de Eletrotécnica da Escola de Engenharia, com o objetivo de realizar estudos sobre irradiação e construção de transmissores. Ele fez a proposta em 1949 ao reitor Alexandre Martins da Rosa, que aprovou o projeto. Mas, para criar uma rádio seria necessária também uma autorização do governo federal. 

A concessão foi aprovada em 1950 e a emissora foi vinculada ao Gabinete da Reitoria. A inauguração aconteceu, de fato, no ano seguinte, 1951. A partir de então, foram instalados equipamentos em um espaço do Instituto Eletrotécnico da Escola de Engenharia.

O primeiro transmissor foi um aparelho Marconi TYPO TPLA, que pertenceu à Polícia Civil, com uma potência de 500 Watts, operando em ondas curtas de 3.945 kHz. Sua antena foi instalada no topo do Instituto Eletrotécnico. Foi a primeira estação de rádio educativa a ser operada por uma universidade no Brasil.

Inicialmente, a rádio foi autorizada a transmitir apenas programas educativos, sobre atividades da Universidade, aulas, palestras, além de informações do Observatório Astronômico. Não podia transmitir programação musical ou recreativa, mas logo começou a pleitear essa autorização e a concessão de um canal em amplitude modulada (AM).

Em 1952, a rádio passou a ter locutores concursados e já possuía estrutura para fazer transmissões a partir de outros pontos da UFRGS, como a Sala Magna da Universidade, o Salão Nobre da Faculdade de Medicina, os Anfiteatros dos Cursos de Física e Matemática e a Biblioteca da Escola de Engenharia. As transmissões eram diárias e tinham duração total de quatro horas e 30 minutos, divididas em blocos descontínuos, e incluíam boletim meteorológico, hora certa, noticiário escolar, palestras, conferências e música. 

Em 1953 a emissora ganhou um novo transmissor de 2 kW, ainda em ondas curtas, e em agosto elaborou seu Regimento Interno, instalou um Conselho Diretor e se organizou nos departamentos Administrativo, Artístico e Técnico. A Rádio foi muito bem recebida pela imprensa e pelo público. Em janeiro de 1954, o reitor Paglioli, em audiência com o presidente da República Getúlio Vargas, formalizou o pedido de concessão de um canal AM, o que foi concedido. A rádio passou a operar na frequência 1.080 kHz. 

A outorga da rádio foi finalmente concedida em 28 de maio de 1956. Em agosto, o governo do estado cedeu terrenos na Ilha do Chico Inglês para a instalação dos seus dois transmissores, um de 2 kW e outro de 500 W, e as primeiras transmissões experimentais começaram no dia 15. A emissora foi ao ar oficialmente às 20 horas do dia 18 de novembro de 1957, sob o prefixo ZYU-67 e uma potência de 10 kW.

Com o golpe de 1964, o governo militar reestruturou os setores da rádio, e passou a envolvê-la em seus projetos de radioeducação, instalando em 1967 em suas dependências a Fundação Educacional Padre Landell de Moura. Em julho de 1968 assumiu a direção geral da emissora a primeira mulher, Vacília Derenji, que já era parte da equipe desde 1962. Sob sua direção a rádio ampliou o horário de transmissão, introduziu novos programas, cursos de idioma, programas sobre literatura, diversificou sua carta musical com óperas completas, jazz, música popular, musicais da Broadway e trilhas sonoras de filmes.

Na década de 70, a rádio foi submetida ao controle do recém-criado Centro de Teledifusão Educativa, um órgão da Pró-Reitoria de Extensão, e teve sua estrutura reformulada por um novo Regimento Interno. Entre as mudanças mais importantes estavam a criação dos setores de Cursos e Radioteatro. Cinco anos depois, 1975, a emissora foi autorizada pelo Ministério das Comunicações a operar com uma potência de 10 kW. E, em maio de 1979, iniciou as transmissões experimentais com 10 kW, passando a atingir uma área com raio de 200 a 300 km.

A falta de verbas para suas atividades foi um problema recorrente, e ainda é uma questão contemporânea. Na década de 1980, a rádio entrou em uma grande crise financeira. Problemas de qualidade do sinal começaram a gerar queixas dos ouvintes e a potência caiu para 1 kW devido à falta de verba para substituição de peças dos equipamentos. Mesmo assim, a rádio conseguiu fazer a cobertura das eleições municipais de 1988 e em 1989 colocou no ar ar o programa Vota Brasil, com professores da UFRGS comentando a conjuntura das eleições para presidente da República

Nos anos 90, a emissora conseguiu se recuperar e foi modernizada. Em julho, a Rádio da Universidade se tornou a primeira emissora AM da cidade a usar CDs na programação musical. Ao mesmo tempo foram adquiridos novos equipamentos, incluindo um novo transmissor com modulação digital e outro híbrido para possibilitar a transmissão de entrevistas por telefone. Em 1995, a emissora iniciou a digitalização do seu acervo musical e, em novembro do mesmo ano, passou a transmitir 24 horas por dia. Em setembro de 1997, a estação inaugurou o seu website, e em março do ano seguinte, a UFRGS AM se tornou uma das primeiras emissoras de rádio do Brasil e a primeira de Porto Alegre a transmitir a sua programação simultaneamente em streaming pela internet. No século 21, a rádio seguiu firme no seu propósito de informar e também entreter.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

 A presidenta, a miss e as meninas do Brasil

Claudia Sheinbaum, 63 anos, é a presidenta do México. No dia quatro de novembro ela foi assediada por um homem que tentou beijá-la e passou a mão no seu seio. O abuso aconteceu na rua, no Centro Histórico da cidade do México, à luz do dia, quando a presidenta se dirigia ao Ministério da Educação Pública, cercada por eleitores. Fátima Bosch, 25 anos, Miss México, foi humilhada em público em evento na Tailândia, também no dia quatro, pelo diretor do Miss Universo 2025. No Brasil, 26.399 meninas entre 10 e 14 anos vivem em união conjugal, revelou o censo do IBGE, realizado em 2022 e divulgado no dia seis de novembro, e todas elas engravidaram, ou seja, foram estupradas.

O que há em comum entre esses três fatos? Eles mostram que não importa a idade, a nacionalidade e o continente, a mulher é importunada, assediada, agredida, humilhada e estuprada por homens que contam com o suporte estrutural da sociedade. O IBGE, na falta de um vocábulo, classificou a união das crianças e adolescentes como “união consensual”, quando sabemos que isso não existe. Essas meninas não são maiores de idade, elas estão na faixa etária da vulnerabilidade. Portanto, essa “união consensual” é estupro, é violência. A menina é retirada das brincadeiras de infância e da vida escolar por um homem que a explora de todas as formas e a faz assumir o papel de esposa, de mãe, de cuidadora, de cozinheira e de faxineira.  

Sem ter acesso à educação escolar e ao convívio com outras crianças, as meninas perpetuam a ignorância e a feminização da pobreza. É exatamente essa situação que parlamentares do Congresso Nacional querem manter para assegurar um mercado de mão-de-obra barato, ignorante de seus direitos civis e de seus direitos reprodutivos. Para conseguir seu objetivo, deputadas e deputados do campo mais atrasado da política aprovaram o PDL 3/2025, que ficou conhecimento como Projeto de Decreto Legislativo da Pedofilia, de autoria da deputada Chris Tonietto (PL-RJ), que pretende cancelar a Resolução 258/2024 do Conanda- Conselho Naconal dos Direitos da Criança e do Adolescente, que assegura o direito a interrupção da gravidez de meninas vítimas de estupro, quando sabemos que criança não é mãe e estuprador não é pai.

Mas o PDL é ainda mais cruel. Ele pretende que as meninas não recebam informações sobre seus direitos e que o governo federal não promova ações contra as tais de “união consensual”, ou seja, o casamento infantil, que é o estupro autorizado. Por ser um PDL, caso o projeto seja aprovado no Senado, não poderá ser vetado pelo presidente da República. A matéria foi aprovada por 317 votos, com 111 votos contrários. Desnecessário  dizer que o Congresso é formado majoritariamente por homens. A Câmara tem 513 parlamentares, desse total, apenas 91 são mulheres, 422 são homens.

Entre 2013 e 2023, 232 mil meninas entre 10 e 14 anos tiveram filhos. Se elas engravidaram, isso é estupro de vulnerável. Mas o Congresso Nacional, ao invés de tratar esse crime como crime, prefere culpabilizar a menina e obrigá-la a ser mãe, a não ter acesso à escola, a não ter acesso à informação, a perpetuar a miséria, a dar prosseguimento a feminização da miséria e a gerar um batalhão de mão-de-obra barata para sustentar os mimos do capitalismo e pagar as contas desses deputados e deputadas que não querem um futuro para a infância do Brasil.


 Filme mostra conexão entre regimes autoritários na América do Sul


“O Condor e a Névoa” é documento cinematográfico que confirma participação dos Estados Unidos no golpes de Estado



O premiado diretor de cinema argentino Maximiliano Gonzalez participa da exibição de seu filme, “O Condor e a Névoa”, dia 10 de novembro, segunda-feira, às 19h, no Sindicato dos Bancários (rua General Câmara 424, Porto Alegre). Logo após, haverá uma conversa com a plateia com a participação do jornalista e mestre em História Nilson Mariano, mediada por Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), que promove o evento.


“O Condor e a Névoa” conta a história de homens e mulheres que deram suas vidas em defesa da democracia e da soberania de suas nações. O filme começa no ano de 1973, quando chegaram a Argentina, em situação de exílio, João Goulart, presidente do Brasil, Juan José Torres, presidente da Bolívia, e o senador Zelmar Michelini do Uruguai, todos vítimas de golpe militar.


O filme avança até o ano de 1992, quando foram identificados no Paraguai os “Arquivos do terror”, provando que havia uma parceria entre as ditaduras latino americanas, que contava com apoio dos Estados Unidos, para perseguir e assassinar militantes políticos e a todos que se opunham aos golpes de Estado.


Arquivos do terror


Os “Arquivos do Terror” são uma coleção de documentos que descrevem diversas atividades ilícitas realizadas por agentes da repressão durante a ditadura militar de Alfredo Stroessner, de 1954 a 1989, no Paraguai. Os documentos foram encontrados em uma delegacia de polícia de Lambaré, subúrbio da capital paraguaia, Assunção, no dia 22 de dezembro de 1992, pelo advogado e ativista de direitos humanos, Martín Almada e pelo juiz José Augustín Fernández.

O juiz José Augustín Fernández e o professor e advogado Martín Almada pesquisavam arquivos sobre um ex-prisioneiro político na delegacia de Lambaré quando encontraram documentos sobre o destino de milhares de latino-americanos que haviam sido sequestrados, torturados e mortos pelos serviços de segurança da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai com a cooperação da CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos, um  esquema que ficou conhecido como Operação Condor.

Os arquivos contém números assustadores: 50 mil  pessoas assassinadas, 30 mil dadas como desaparecidas e 400 mil presas. Os documentos também revelaram que outros países, como Colômbia, Peru e Venezuela, cooperaram com a Operação Condor fornecendo informações às ditaduras do Cone Sul e aos agentes dos Estados Unidos. 

Maximiliano Gonzalez


O diretor Maximiliano Gonzalez nasceu na província de Misiones, na Argentina. Concluiu seus estudos em Puerto Iguazú antes de se mudar para Rosário para estudar na Escola de Cinema. Em seguida, recebeu uma bolsa de estudos da Escola Nacional de Cinema de Buenos Aires (ENERC). Seus roteiros receberam inúmeros prêmios e seus filmes conquistaram reconhecimento em festivais de cinema nacionais e internacionais. Como diretor e roteirista, realizou: “Quiero Volverme Tiempo (Víctor Heredia & Latinoamérica)” (2023), e “Lejos de Peking” (2020), entre outros. 


Gonzalez também é o diretor da série “La Muerte de un Presidente”, sobre o ex-presidente João Goulart, deposto pelo golpe militar de 1964. Organizado em seis capítulos, a série conta o final da vida do líder trabalhista e estreou em 2020 na Argentina. O ex-presidente do Brasil viveu na Argentina os últimos anos de sua vida, de 1973 a 1974, em uma fazenda próxima a Buenos Aires. A produção demandou cerca de dois anos para preparação e conclusão.

Nilson Mariano


Nilson Mariano é graduado em Jornalismo e mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Publicou livros em português e espanhol sobre a Operação Condor, revelando o pacto secreto entre as ditaduras militares do Cone Sul. Entre as premiações que obteve como repórter estão o Prêmio Nacional Esso de Jornalismo (2013), mais cinco Essos regionais, o Vladimir Herzog de Direitos Humanos, dois da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), World Association of Newspaper (WAN), Embratel, Associação Rio-grandense de Imprensa (ARI) e Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH). Também é co-autor em quatro livros de reportagens.


Mariano é Cidadão Emérito de Porto Alegre, "Jornalista Amigo da Criança" (Andi/Unicef) e Prêmio Direitos Humanos Rio Grande do Sul (2000). Participou de quatro coletâneas organizadas por professores da PUCRS e da UFRGS sobre regimes autoritários. Nasceu em Candelária (RS), atuou como repórter nos jornais Zero Hora e Folha da Tarde por 35 anos. 





terça-feira, 4 de novembro de 2025

 Livro “A empáfia da covardia” é argumento contra a anistia para golpistas


O Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) e a Associação de Ex-presos e Perseguidos Políticos/RS lançaram o livro “A empáfia da covardia”, organizado por Omar Ferri e Jair Krischke e publicado pela editora BesouroBox. O livro é uma importante contribuição jurídica e histórica para ser adicionada à lista de argumentos contra a anistia aos réus da tentativa de golpe de Estado em 08 de janeiro de 2023. A publicação está organizada em seções que abordam desde a ascensão de figuras políticas controversas, passando pela corrupção institucional, até chegar à luta pelos direitos humanos no Brasil. O lançamento do livro aconteceu em cerimônia na Assembleia Legislativa dia 28 de outubro.


A obra resgata os recentes eventos que revelaram o padrão de corrupção e desrespeito à democracia no Brasil, conduzidos pelo núcleo duro da presidência da República no período de 2019 a 2022, e que avançaram sobre o mês de janeiro de 2023 com a tentativa de golpe e o vandalismo na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. No dia 12 de dezembro de 2022, data da diplomação do presidente Luís Inácio Lula da Silva no Tribunal Superior Eleitoral, apoiadores de Bolsonaro já haviam tentado invadir a sede da Polícia Federal, além  de depredarem e incendiar um ônibus e um carro e promoverem uma baderna no centro da cidade, provocando o fechamento do comércio para evitar maiores danos.


Os autores da obra explicam que o objetivo é “registrar a inconstitucionalidade de qualquer lei que pretenda conceder anistia aos réus das criminosas ações adotadas na tentativa de golpe em 08 de janeiro; anistiar é um crime de lesa-pátria, é autorizar aquilo que a Constituição proíbe”. 


Os autores


Omar Ferri, advogado, ex-presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos e ex-procurador federal. Durante sua vida profissional, Ferri exerceu vários cargos públicos, entre eles o de vereador de Encantado e de Porto Alegre no período de 1990 a 1994, e foi procurador da Fundação Brasil Central no governo do presidente João Goulart. Ele foi preso duas vezes durante a ditadura. Ferri é autor do livro “Seqüestro no Cone Sul”, sobre o sequestro em Porto Alegre dos uruguaios Lílian Celiberti e Universindo Díaz, em 1978. Naquela ocasião, Omar Ferri atuou como advogado dos sequestrados.


Jair Krischke, historiador, é o fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), em 1979. Ele foi colaborador do Acnur- Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. Naquele período, a principal missão de Krischke com o MJDH era proporcionar asilo, ou exílio, às vítimas da perseguição política pelas ditaduras no Cone Sul. Estima-se que cerca de duas mil pessoas, perseguidas pelas ditaduras, tenham sido salvas graças a ação do MJDH. 


O livro “A empáfia da covardia” está disponível na sede do MJDH e pode ser solicitado via Instagram @mjdh O valor sugerido é R$ 40,00.