sábado, 24 de janeiro de 2026

 Propaganda pró Trump nas redes sociais


Donald Trump, presidente dos Estado Unidos (EUA), disse que acabou com oito guerras no mundo. Quais seriam? Falou também que a Groenlândia deve ser devolvida, como se alguma vez tivesse pertencido aos EUA. A ilha é território autônomo da Dinamarca desde 1814, mas os povos nórdicos estão lá desde o século 10.


As declarações de Trump imediatamente ganharam as redes sociais e foram compartilhadas por perfis de destaque, como o do bilionário Elon Musk, ex-funcionário da Casa Branca, e a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, por exemplo. Eu, que mesmo sem seguir esses perfis na rede X (ex-Twitter), recebi dezenas de posts com as declarações falsas de Trump. Quando interagi com o perfil da Embaixada, recebi o mesmo post traduzido para o português.


“As tecnologias de informação e comunicação (TICs) trabalham com modelos matemáticos e geolocalização”, explica o professor do centro universitário Uniritter, Jean Paul Lopes, especializado em Formação Pedagógica e graduado em Desenvolvimento de Sistemas. É por isso que meu comentário, interagindo com a postagem da Embaixada dos Estados Unidos, foi matematicamente analisado e geograficamente identificado como um post veiculado desde o Brasil. A inteligência artificial está aí para processar informação em milésimos de tempo e direcionar conteúdo, não do nosso interesse, mas do interesse do negócio! 


“O propósito das TICs tem muito mais a ver com o mercado do que com a veiculação da informação pura e simples. Os algoritmos são modelos matemáticos construídos para obter o melhor resultado. Há uma máxima nas TICs: quando o produto é de graça, tu és o produto, porque desenvolver dados é muito caro. Ninguém vai entregar nada de graça pra ti”, afirma o professor Lopes.


Se já é assim agora, imagine como será o cenário na eleição de 2026. O uso da IA está liberado. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve as mesmas recomendações fixadas na eleição de 2024 e divulgou uma minuta no dia 19 de janeiro deste ano. A revisão das regras sobre o uso de IA está a cargo do atual vice-presidente do TSE, ministro Nunes Marques (indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro), e que estará no comando do Tribunal durante as eleições de 2026. Haverá uma audiência pública sobre  o tema  nos dias 3 e 5 de fevereiro. 


Em 2024, o TSE proibiu o uso de qualquer publicação manipulada (as chamadas deepfakes) e determinou que o conteúdo produzido com uso IA deveria ser identificado. Mas essa identificação passa despercebida pelo público. Conhecida como “marca dágua”, ela é uma informação que entra como dado, ou seja, só fica sabendo quem é programador digital.

Um ponto importante da minuta do TSE, no entanto, é a determinação de que um perfil pode ser removido pela Justiça Eleitoral quando for "comprovadamente falso, relacionado a pessoa que sequer existe fora do mundo virtual (perfil automatizado ou robô) ou cujas publicações estejam voltadas ao cometimento de crime".

A robotização foi extremamente utilizada nas eleições majoritárias de 2018, quando Bolsonaro foi eleito. Nessa época, o presidente do TSE era o ministro Luiz Fux, que criou um conselho dentro do tribunal para avaliar fake news.  O uso de robôs só veio à tona graças a reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo e assinada pela jornalista Patrícia Campos Mello. O disparo em massa de mensagens instantâneas com o uso de robôs foi proibido pelo TSE em 2019. 

Centro Integrado


Certamente você já ouviu falar em “cartilha gay”, ou em “mamadeira de p*”, ou ainda que a “vacina contra Covid implanta um chip chinês na pessoa”. Esses três temas têm em comum o fato de serem fake news, ou seja, são desinformação, e as três surgiram durante campanhas eleitorais.


Pois bem, a justiça eleitoral colocou foco nesse assunto. O então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes, inaugurou em março de 2024 o Centro Integrado de Enfrentamento à Desinformação e Defesa da Democracia (CIEDDE), que tem como objetivo coordenar ações junto aos três poderes, órgãos da República e instituições na promoção da educação em cidadania, dos valores democráticos e dos direitos digitais.


Na ocasião, Moraes disse que “a vontade do eleitorado vem sendo atacada por milícias digitais desde 2018, que, ao utilizar fake news e discursos de ódio, pretendem desvirtuar o mercado livre de ideias”. O ministro informou também que cabe ao Centro, entre outras atribuições, combater a desinformação eleitoral; as deep fakes e os discursos de ódio, discriminatórios e antidemocráticos na esfera eleitoral. A eleição de 2026 estará a cargo da ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha.


Novo sangue


Nossos dados são o novo sangue das pessoas e o novo combustível das empresas. Quem afirma é o médico Felix Rigoli, ex-gerente de Sistemas de Saúde da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), entidade da Organização Mundial da Saúde(OMS), no período de 2000 a 2015, em Washington e também em Brasília.


Felix Rigoli, que atualmente coordena o Observatório de Desenvolvimento, Desigualdades em Saúde e Inteligência Artificial (Odisseia), do Núcleo de Bioética e Diplomacia (NETHIS) da Fiocruz/Brasília, destaca os riscos de nossos dados pessoais ficarem expostos em redes sociais e ilustra com um caso ocorrido nos Estados Unidos, onde uma rede de lojas coletava os dados das mulheres e classificava aquelas que tinham perspectivas de engravidar com o objetivo de enviar propaganda de fraldas e mamadeiras. 


Atualmente, essa mesma base de dados da loja está sendo usada pela polícia dos estados onde o aborto é criminalizado para classificar e ameaçar as mulheres que possam estar cogitando interromper a gravidez.  “Os executivos das Bigs Techs têm comentado muito em reuniões fechadas como é fácil obter os dados das pessoas”, revela Rigoli. “Elas fornecem as informações voluntariamente ou em troca de nada, ou de quase nada, colocando na rede milhões de dados pessoais”.


O Facebook coleta 52.000 pontos de dados de cada indivíduo, todos colocados voluntariamente pelas pessoas na ansiedade de publicar a cada instante. O Instagram multiplica por dez essa exposição, mostrando lugares, acompanhantes, uso de produtos e outras coisas. “Infelizmente, não há uma norma que possa proteger as pessoas de suas próprias condutas. Por isso criar consciência é tão importante”, diz o especialista.


BOX


Dados vazados


É possível verificar se nossos dados foram vazados na internet. Alguns sites fazem esse trabalho, como o Have I Been Pwned, que busca por seu e-mail em bancos de dados de vazamentos, e o DataBreach.com, que vasculha a dark web para encontrar os dados. O Banco Central também oferece ferramentas para verificar movimentações bancárias e identificar possíveis fraudes. 


Algumas opções de sites para verificar vazamentos:

Have I Been Pwned?

Digite seu e-mail ou número de telefone para saber se já ocorreu algum vazamento de dados. 

DataBreach.com

O site vasculha a dark web e informa se seus dados (como e-mail, senha, nome etc) já foram encontrados em vazamentos. 

Registrato do Banco Central

Para verificar movimentações bancárias e identificar possíveis fraudes, utilize o Registrado do Banco Central. 

Kaspersky

O aplicativo Kaspersky também tem um verificador de dados vazados.

Pesquise seu e-mail no Google

Digite seu e-mail entre aspas no Google para ver se ele aparece em sites ou fóruns que não deveriam ter acesso aos seus dados. 






domingo, 4 de janeiro de 2026

 Bugio é patrimônio cultural imaterial


Bugio é um macaco, é ritmo musical, é dança e agora é patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul. Nesta terça-feira (12) o Bugio assumiu oficialmente esse patamar em cerimônia realizada no Multipalco Eva Sopher, promovida pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae). O ato contou com a participação de tradicionalistas das cidades serranas de São Francisco de Assis e de São Francisco de Paula, onde o gênero musical surgiu. Os municípios realizam festivais dedicados exclusivamente a este ritmo, o Querência do Bugio e o Ronco do Bugio, respectivamente.


A origem do ritmo remonta aos tropeiros do século XIX que imitavam o ronco do bugio em suas gaitas de fole. Mas o gênero musical tem outras peculiaridades, agregando também elementos da cultura indígena da etnia Guarani. O pesquisador e luthier de acordeão Israel Da Sois Sgarbi, de São Francisco de Paula, autor do livro “O ritmo musical do bugio”, explica que os tropeiros e os indígenas se comunicavam muito por mímica em seus acampamentos, sempre próximos de matas com bugios.


Nesses encontros, onde havia festa e danças, era utilizada uma espécie de chocalho feito de taquara para bater no solo e marcar o ritmo, o takuapu, geralmente usado pelas mulheres. Este teria sido o primeiro compasso do bugio. Mais tarde, os tropeiros agregaram o acordeão, o violão e a rebeca. O takuapu é feito de um tubo oco de bambu usado em cantos, danças e também em rituais.


Já a dança do bugio reproduz os passos do primata. É um pouco parecida com a Vanera, mas são dois passos, um pulinho, e mais dois passos, de modo rápido. Na década de 1950 os irmãos Bertussi gravaram em um estúdio do Rio de Janeiro o primeiro disco com o novo ritmo, “Casamento da Doralice”. 


O ato que transforma o Bugio em patrimônio cultural imaterial gaúcho faz parte das comemorações do Dia Estadual do Patrimônio Cultural, comemorado sempre no terceiro fim de semana do mês de agosto. No dia 15, sexta-feira, às 19h, o marco das comemorações será o badalo simultâneo de sinos de igrejas e tambores de terreiros em diversos municípios, incluindo Porto Alegre.


Em seguida, a Casa de Cultura Mario Quintana, no Centro Histórico de Porto Alegre, será palco da apresentação de um coro com 150 vozes, distribuídas pelas janelas, passarelas e sacadas da instituição, que cantará músicas populares do Rio Grande do Sul. O grupo é formado por integrantes de 27 coros associados à Federação de Coros do RS (Fecors), sob regência do maestro Eduardo Alves.


Bugio, primata americano


O bugio também é chamado de macaco-ruivador, guariba e barbado. Ele é um Aloutta, gênero de primata natural das Américas. A espécie tem uma ampla distribuição geográfica, desde o México até o norte da Argentina. São animais de porte relativamente grande e de dieta predominantemente folívora, ou seja, consomem basicamente folhas, mas também podem consumir frutas e ovos. Vivem em grupos de até 18  indivíduos, com um macho dominante e muitas fêmeas.


Os machos emitem uivos altos e graves, que servem para marcar território, comunicar a localização do grupo e estabelecer hierarquias sociais. As fêmeas também vocalizam, mas suas chamadas são mais suaves. O ronco do bugio pode ser ouvido a quilômetros de distância.




 Laboratório da UFRGS na Antártica é tema de documentário

O laboratório Criosfera 1, na Antártica, é a locação escolhida pela National Geographic para o documentário Pole To Pole, que estreia dia 13 de janeiro de 2026 na plataforma de streaming Disney+, apresentado pelo ator Will Smith. Inaugurado em 2012, o Criosfera 1 é uma iniciativa da UFRGS- Universidade Federal do Rio Grande do Sul em parceria com várias instituições de pesquisa científica.

Will Smith esteve no Criosfera 1 no verão antártico de 2022 para mostrar como os pesquisadores trabalham e lideram pesquisas sobre as mudanças do clima. O ator, de 57 anos, que também é músico e produtor, é natural da Filadélfia, Estados Unidos, e conquistou o Oscar de melhor ator, em 2022, com o filme King Richard.

Além da UFRGS, Criosfera 1 reúne pesquisadores parceiros da Uerj- Universidade do Estado do Rio de Janeiro, do Inpe- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, e outros usuários da plataforma científica como a Universidade de São Paulo (USP), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). O Criosfera 1 foi possível graças aos investimentos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), CNPq/Proantar, Comissão Interministerial para Recursos do Mar, Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), FAPERJ e Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (Fapergs).

100 dias


Após três anos de produção, a série acompanha Will Smith em uma jornada de 100 dias pelos sete continentes, dos campos de gelo na Antártica à floresta amazônica, das montanhas do Himalaia aos desertos africanos, das ilhas do Pacífico aos icebergs do Ártico. Na expedição de polo a polo, Smith viaja acompanhado por cientistas, exploradores e especialistas locais, participando de descobertas científicas e criando conexões com as comunidades por onde passa. 

 

A reitora da UFRGS, professora Márcia Barbosa, comentou sobre o documentário. “Ele dá publicidade a algo que a universidada faz há muito tempo, que é a pesquisa científica na Antártica, medindo a relação entre as emissões de gases e as mudanças climáticas. Hoje a UFRGS é uma liderança reconhecida, coordenando o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia no tema. Realizamos igualmente um projeto de circunavegação do Polo Sul sob a liderança do nosso professor, o glaciólogo Jefferson Cardia Simões”. A reitora destaca ainda “que esta liderança é fundamental para entendermos os efeitos das enchentes e das secas que afetam o Rio Grande do Sul”. 

O Criosfera 1 foi instalado no verão de 2011/2012 por uma expedição do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (INCT da Criosfera), usando logística contratada da Antarctic Logistics Expeditions (ALE). O módulo fica no manto de gelo da Antártica Ocidental e é dotado de sistemas eólico e solar que permitem o seu funcionamento de forma ininterrupta, demandando apenas uma manutenção de 20 dias no mês de janeiro de cada ano. 

Criosfera 2

Em janeiro de 2023, pesquisadores da UFRGS concluíram com sucesso a instalação do Módulo Científico Criosfera 2.  Ele foi implantado pelos pesquisadores no interior do continente antártico.

O Criosfera 2 está localizado sobre uma calota de gelo com aproximadamente 600 metros de espessura, ao sul do Mar de Weddell, com vista para a montanha mais alta da Antártica, o maciço Vinson com 4.897 metros de altitude. A temperatura no Criosfera 2, durante o inverno, pode cair a 40 graus negativos.

É a partir dessa região que as massas de ar frio provenientes do platô polar abastecem o mar de Weddell, no inverno, e são responsáveis pela intensificação de eventos extremos e ondas de frio no Sul do Brasil. O módulo funciona em condições climáticas especiais, porque está instalado a 2,2 mil metros ao Sul da Estação Brasileira Antártica Comandante Ferraz, contra os 900 metros do Crioesfera 1. 

Para saber mais, leia a entrevista com o glaciólogo Jefferson Cardia Simões:

https://www.brasildefato.com.br/2025/02/20/alem-de-catastrofes-climaticas-degelo-cria-nova-geopolitica-diz-glaciologo-da-ufrgs/